sexta-feira, março 30, 2007

Hoje acordei assim

Com o alto patrocínio de qualquer coisa assim para o muito bom...

quarta-feira, março 28, 2007

Portugal perdeu a bandeira

No dia em que acordei para a estupidificação que é o meu país, estava tudo no mesmo sítio. Céu cor-de-burro-quando-foge, bandeirinhas do Carrefour abanadas pela trova do vento que passa, buzinas e buzinões matinais, semáforos rasgados pela pressa do atraso, cigarros fumados num compasso de espera entre camas e secretárias, bancários de ar bonacheirão a saírem para o primeiro pastel de nata, autocarros cheios de pessoas e vazios de gente, polícias à espreita da próxima multa, estafetas a cruzar espacinhos impossíveis, dois homens (são sempre dois) numa carrinha de caixa-aberta a apreciar as condutoras do lado de modo grosseiro, pastelarias à pinha para os debates roubados à noite anterior, aviões que se passeiam demasiado próximos dos prédios amarelos do Campo Grande, e o resto. Era mais um dia, nem por isso um dia a mais. Na véspera o país tinha-se vestido de gala e sentado ao sofá para assistir à maior homenagem ao fascismo desde o dia em se deram cravos em vez de tiros. Dez milhões de alminhas, umas mais que outras, mas diz que o todo são dez milhões, perderam a vergonha e teclaram “Salazar”, quando podiam ter teclado mil nomes de liberdade. Não estavam sob efeito do ópio, porque o ópio deixou, nessa noite, de ser do povo. Não estavam na cela escura e negra em que não se pode falar, nem pensar, menos ainda dizer. Não estavam a tentar encontrar o Euromilhões premiado (mas, com tanto lobby do chá, decerto muito se lucrou por aí). Estavam em frente ao computador onde vêem sites porno e onde praguejam contra os melhores amigos. Estavam em casa das amantes, nos botequins de esquina, na quinta que a noiva comprou, no shopping aberto aos seus desejos, à saída de uma late-night session num cinema hardcore, no estádio do clube do coração, na retrete – com uma pilha de Lux’s e Caras e Flash’s e afins, no carro que acabaram de estrear, na espera do tapete rolante do aeroporto enquanto as malas caribenhas não chegam, numa loja da Vodafone a comprar o último grito em comunicações móveis para ficarem mais perto do que é importante, em redor de uma lareira gasta pelo fumo do amor que já morreu, e em todos os lugares. Assim, livres e deuses de si, opinaram que o senhor que proibia a opinião era o maior português em séculos de portugueses. Esqueceram o “Último Tango em Paris” porque afinal nunca o chegaram a ver, era um atentado à moral e bons costumes. Puseram para trás o medo quando eram seguidos na rua, as palavras que nem podiam pronunciar, os sítios que não podiam visitar, as eleições em que não podiam votar, os amigos que desapareceram desaparecendo, as tareias que os mais afoitos levaram, a África que se despedaçou, as canções riscadas da rádio, e tudo o que nunca deve fazer uma vida. Pegaram no telefone que os liga a este mundo e ao outro, ligaram o computador que lhes desbrava universos, e disseram alto e bom som que o senhor-ditadura era o maior de todos quantos fomos na nossa já grande eternidade. Enquanto eu dormia, calada por uma amigdalite perversa, era assim que se assumia o meu país. Quando acordei, senti um nojo incómodo, uma sujidade envelhecida, uma vergonha adormecida. Lá fora estava tudo na mesma, porque os pequenos portugueses tinham-se assegurado que tudo ficará sempre na mesma – pequenino, triste, bolorento, tacanho, abortável, cinzento. Mau.

terça-feira, março 27, 2007

Silêncio, que se vai fazer teatro...

***** AUTO DA ÍNDIA, Gil Vicente *****

Moça
- Ai, senhora! Venho morta!
Noss’ amo é hoje aqui.

Ama - Má nova venha por ti
perra, excomungada, torta.

Moça - A Garça, em que ele ia,
vem com mui grande alegria;

per Restelo entra agora.

Por vida minha, senhora,

que não falo zombaria.

E vi pessoa que o viu

gordo, que é pera espantar.

Ama - Pois, casa, se t’ eu caiar,
mate-me quem me partiu!

Quebra-me aquelas tigelas

e três ou quatro panelas,

que não ache em que comer.

Que chegada e que prazer!

Fecha-me aquelas janelas,

deita essa carne a esses gatos;

desfaze toda essa cama.

Moça - De mercês está minha ama;
desfeitos estão os tratos.

Ama - Porque não matas o fogo?

Moça - Raivar, qu’ este é outro jogo.

Ama - Perra, cadela, tinhosa,
que rosmeias, aleivosa?

Moça - Digo que o matarei logo.

E tu, já puseste a tua hoje?

domingo, março 25, 2007

Say it again, Woody!

[...]
Alvy Singer: Love is too weak a word for what I feel - I luuurve you, you know, I loave you, I luff you, two F's, yes I have to invent, of course I - I do, don't you think I do?
[.]
Alvy Singer: A relationship, I think, is like a shark. You know? It has to constantly move forward or it dies. And I think what we got on our hands is a dead shark...
Desse compêndio das relações humanas chamado "ANNIE HALL" (1977)

Mentirinhas e afins

- Perdoem-me a manipulação, dê-se três vivas ao post options, mas de facto o texto anterior foi escrito hoje. Quem por aqui andou ontem sabe disso, só que por vezes até as comemorações mais banais fazem sentido numa data específica.
- Às vezes somos tão grandes, tão grandes que não cabe numa palavra dizer o nome de Portugal: parabéns putos que jogam à bola de alma no pé, e parabéns maiores ainda à selecção de rugby, que foi pela primeira vez apurada para o Campeonato do Mundo.
- E se eu disser que estive demasiado ocupada a ser feliz, a vigarice tem desculpa?
- "Temos tanta coisa para fazer juntos que não sei se o mundo durará tempo bastante". Se alguém souber onde eu li isto, e-mailme que eu agradecerei eternidade adentro.
- Não, não gosto de rugby. Como desporto, acho-o visualmente feio, agressivo, sem propósitos. Barulhento - de grunhidos. E não lhe encontro filosofia nenhuma. No entanto, nem por isso retiro o mérito a quem o tem, e a quem vive, de ensaios de rabo para o ar.
- Quando não tiveres o que viver, deixa-te estar à espera. O tempo passa e muda tudo o que pensamos não aguentar. E é um erro largar dias em considerações destas. Porque, enquanto estiver vivo, o homem aguenta tudo, escreveu ela. Há quatro anos e tantas vidas atrás...

sábado, março 24, 2007

Um ano e 416 posts depois...

A menina vem da cidade maravilhosa, onde enterrou asneiras na areia menos movediça de Ipanema, esfrega as mãos de semi-contente, e prepara-se para reconstruir o castelo que o medo deitou ao chão. Só que o tempo ficou para trás, não esperou por ela, e restam apenas noites em claro, lágrimas pretas e gritos no vazio, já não há ninguém para a ouvir. É altura de subir a esse carrossel a que chamam vida, tomar-lhe o comando, e não olhar para as coisas que teriam sido. Para onde mandar os medos, encontrar as palavras, esvaziar a alma, procurar o rumo? [...]

Cria-se um blog. Entregam-se os dados à virtual folha em branco, aceita-se o jogo dos novos e aventurados amanhãs, alargam-se os laços, os cabos, as ancoras, os traços. Põe-se a vida toda numa página aberta e faz-se o compasso da ressurreição – a partir de agora, tudo vai saber tão bem como uma gota de água na aridez do deserto. "A vida é uma obra-prima". Mas não é, claro. Mas quer-se muito que seja. Fecham-se os olhos e a vida é o que quisermos fazer com ela, fecham-se os olhos e a vida é tudo nosso, decisões nossas, sonhos nossos, vontades nossas, anseios nossos, crenças nossas, devaneios nossos, tudo nosso, o arco-íris, a mais perfeita onda a rebentar no mar, o cheiro das torradas com azeite da minha avó, as manhãs azuis da minha infância, o meu avô a rir-se com os meus sustos, os livros Patinhas comprados no quiosque, os fins-de-tarde na praia de Albufeira - no tempo em que ia ser criança até ao fim dos dias, a música que me irrompe espírito adentro, madrugada fora, eu ao colo do meu pai, a frase perfeita, uma cama acabada de fazer, o dia em que voltei das compras a chorar e a minha mãe voltou comigo para trás, o olhar que nos arrepia mais que o frio que corta árvores ao vento, os meninos à volta da fogueira, tudo nosso. Fecham-se os olhos. [...]

Um ano depois, abrem-se os olhos - só para ver o que mudou. O que mudei. E está tudo aqui. Só faltam os textos que não escrevi, os banhos de mar que não tomei, as noites que não dormi, os livros que não terminei, os jornais que não li, os filmes que não apreciei, as pessoas que não amei, os trabalhos que não fiz, as canções que não escutei, os amigos que não conheci, o tempo que não recuperei. Ainda quero ser mais feliz do que a felicidade, continuo a querer ver o mundo à minha maneira, mantenho a minha ânsia de futuro, guardo os meus fantasmas da meia-noite e outras horas e, mesmo sabendo que não aprendi nada, que não vi nada, que não tenho nada, e que não sou nada, a vida tem de ser uma obra-prima. E só quem a pega de caras se arrisca a levar coices de alegria inqualificável.

***** A todos quantos passaram por aqui, e me ajudaram a pegar de caras o medo de me escrever, um obrigado sem tamanho. Nestas bandas não se servem clichés nem considerações made in farinha Amparo, por isso sinto-me à vontade para dizer que, sem vocês, esta minha jornada virtual teria sido impossível. São sempre vocês que escrevem comigo, a quatro e a mil mãos, o próximo texto.

sexta-feira, março 23, 2007

Esta é de quem a apanhar (ou apanhou...)

Saudades?
Isso é fechar os olhos e querer um abraço, abrir os olhos e desejar um beijo?
Também tenho...

quinta-feira, março 22, 2007

Um, dois, três...

- Amei as flores. Amei as flores. Amei as flores. E escrevia isto o dia todo...
- Ontem, dia mundial da poesia. Uma descoberta:

Venho de tempos antigos. Nomes extensos:

Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
(Hilda Hilst)
- As flores que duram mais são estas, colhidas pela amizade! Obrigada!
- Quando você olhar, já fui..., disse ela. E disse muito bem.
- O caminho mais fácil para a tristeza é abrir uma lágrima noutra pessoa.
- Ainda o poema. Escrever "dize de mim: és minha" é roçar os génios de além mundo.
- Quem se esqueceu de te oferecer hoje um sorriso?

Sobre as ilusões

O tempo não é recuperável. A vida não é adiável. Tudo o que não for agora, não será nunca. Amanhã só serve para diálogo de filmes série B. Depois só se escreve em argumentos de tv. Qualquer momento ignorado, qualquer momento deixado para trás, qualquer momento que não for vivido, nunca será momento a não ser em palavras. E tudo o que nunca foi não conta no somatório do ser.
Talvez sabe a pouco para quem escolhe o rio em vez da margem. No meio das águas turvas, em frente às mais fortes correntes, só sobrevive o que luta contra a água: quem se presta a contemplá-la morre no entretanto. Por isso os maiores lutadores não são aqueles que vencem mais batalhas - são os que enfrentam todas as batalhas sem deixar cair um bravo do pelotão.

terça-feira, março 20, 2007

...

Não posso escrever. Se concretizar em palavras o que estou a sentir, este medo torna-se real.

Ainda o cansaço

(autor: Maggie Taylor)

segunda-feira, março 19, 2007

Na véspera da meia-noite

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

domingo, março 18, 2007

Nua. Completamente nua.


Foi assim que me senti, este fim-de-semana, das duas vezes que leram o blog na rádio. Não é fácil entregar as nossas palavras a outra pessoa - se já custa muito vê-las partir de nós, cada vez que as transformamos em texto e as deixamos voar para o mundo de quem as lê, é quase cortante deixá-las tomar corpo na voz de alguém, soltá-las no éter, e deixar que corram por ventos e curvas que não podemos controlar. Foram só uns posts, claro. E nem foram daqueles que mais carregam o peso da minha alma. Ainda assim. Pensar que outros, para além de mim, estavam a ouvir aquilo, e a pensar naquilo (e o que pensariam os ouvidos que escutavam as minhas pequenas coisas?), deixou-me paralizada. Estariam seis, sete pessoas a prestar atenção? É muita gente... Fico tão confortável nos braços de quem me lê, de quem me sabe todos os dias, que sentir-me no mundo das coisas palpáveis assustou-me tanto que a aparelhagem tomou proporções gigantescas e engoliu a minha sala... Estariam seis, sete pessoas a prestar atenção? Seriam esses os olhos, as mãos e os ouvidos que sussuravam à minha volta, naqueles minutos em que a escrita acabou com o meu rio e não me deixou margem para nada?

sexta-feira, março 16, 2007

Porque é que a vida não tem de ser necessariamente má

Deste lado não se fazem ovos estrelados. Não se faz massa com esparguete (não, a escriba não se enganou). Não se cozem batatas a murro, só se dão murros em batatas. Não se faz peixinho frito nem bifinhos com molho de mostarda e café. Não se preparam alheiras, farinheiras nem eiras nem beiras. Não se distingue uma dúzia de arroz de arroz para uma dúzia. Deste lado não há maquilhagem water-proof, porque não há maquilhagem. Não há eyeliner camuflado porque não há eyeliner. Não há sombra cinzenta esbatida porque não há sombra de cor nenhuma. Não há blush caramelo porque não há blush, nem de caramelo nem de lollipop. Não há gloss kiss-proof porque não há gloss, nem kiss, nem proof (uma pena não haver kiss). Deste lado não há móveis de aspecto "Habitat" ("área" ficava aqui mal). Não há espelhos com vontade de se verem ao espelho. Não há ecrãs plasma (não há ecrãs). Não há cortinados to die for. Não há sofás eu ficava aqui a minha vida toda. Não há casa o que eu matava para morar aqui. Não há carro deixas-me conduzir um bocadinho? Não há ordenado que justifique uma conta bancária. Não há emprego certo que legitime a existência de um mapa de férias. Deste lado não há nada disso.

Mas... Há um sorriso que ainda vai iluminando algumas ruas desertas. Uma teimosia que todas as noites se deita iludida num mundo melhor. Uns dentinhos de miúda que me transportam para momentos que já ficaram para trás. Uma gargalhada alta e sincera que se partilha com quem gosta de medir os pulsos à vida. Uns amigos que valem por todos os que não fui a tempo de ter. Uma vontade de ver, de ir, de fazer, de revirar, de sentir, de perguntar, de descobrir, de mexer, de revolver, de procurar. Um medo de perder horas a ter medo, e que me abana e me impede de ter medo. E mais coisas, e tantas coisas, que as outras, esses pequenos-grandes nadas em que sou um zero à esquerda, não têm realmente importância nenhuma.

Este fim-de-semana...

SERÁ?!
[Para descobrir sábado, entre as 06/07h, e domingo, das 20 às 21h. Na Comercial]

quinta-feira, março 15, 2007

Foi só fechar os olhos...

... e Deus atirou-se para o chão.

quarta-feira, março 14, 2007

A foto que há-de mudar o mundo


Quando alguém me tirar uma fotografia assim, tão descontraída como se tivesse saído de mim para ir tomar o pequeno almoço em frente à Tiffany's, nesse dia temos alguém - para um lado e para o outro.

# verdade


Não esperes nunca de mim que eu seja fiel a qualidades que não tenho. O que podes é contar com as que tenho, porque nessas não te falharei nunca.

in Equador, Miguel Sousa Tavares

terça-feira, março 13, 2007

EXPERIMENTA


A vida é uma viagem.
Há um rio e uma margem.

Onde queres estar?

Destination = nowhereland

1:20

Já reparaste que são as pequenas coisas da vida que nos fazem chegar as melhores lágrimas aos olhos?
in
Húmus, Raul Brandão

segunda-feira, março 12, 2007

Paraty!


Há dois anos, mais coisa, menos coisa, almocei neste restaurante, em Paraty. Hoje, no meu passeio diário pelos castelos encantados da blogolândia, encontrei-o, sem saber como nem porquê, aqui. Paraty! Tanto tempo depois... Tanta vida depois... Como mudou tudo desde aquele almoço! Aquelas mesas, às três de uma tarde infernal de quente, um sol abrasador, os pés cansados, a mochila a cair-me pelas costas abaixo... As borboletas que vi nesses dias tinham mil cores, as cores que só se vêem por instantes de lusco-fusco, nas coisas mágicas que têm um fim inscrito à nascença. Foi assim. Aquelas borboletas bateram asas para muito, muito longe, e tudo o que fica desse tempo é o restaurante, as mesas, a praia vazia, o mar cheio, a cidade linda - tudo o que é possível tocar.

Lembram-se do azeite?*


Agora o post da discórdia é sobre o tabaco. Diz-se por aí à boca cheia que o Governo vai proibir o tabaco em lugares fechados e outros que tais. Porque fumar prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam, porque quem não fuma não tem que levar com o fumo de quem se quer matar precocemente, porque o ar fica poluído, e preto, e porco, e mau, porque sim, porque não, e porque talvez. Porque o Governo quer ser amigo. Quer que gostem dele (há maior prova de falta de personalidade do que querer que gostem de nós?) – quer que votem nele. Caramba, o tabaco mata! E então, a vida não mata também? Acordarmos todos os dias não é o maior risco que corremos? Mortos, não morremos mais. Agora vivos... Vivos, deixemo-nos de hipocrisias, até um iogurte natural nos pode matar! Se queremos que seja um cigarro, por que raio têm de ser terceiros a decidir sobre as quantidades de alcatrão que ingerimos ou deixamos de ingerir? Não querem fumar? Não fumem! Acho bem. Não morrem do mal, morrem da cura. Ou julgam que esse pão todo que andam a comer que nem uns alarves, essa farinheira que assam todos os fins-de-semana às escondidas, esse álcool que bebem como se fosse sangue de Cristo, esses comprimidos que tomam como se fossem milagres prêt-a-porter, essas dietas malucas que vos destroem o organismo, esses suplementos que tiram a fome mas não tiram a vontade de comer, julgam que é essa porcaria toda, essa pseudo-ausência de fumo que vos trará a vida eterna? Numa palavra, para ser pouco cruel: não. Fumar é um acto de liberdade pessoal. Puxar de um cigarro, após uma refeição, pode ser tão relaxante como meia hora dentro de uma banheira de água. Saborear um cigarro é viver intensamente até ele se esfumar. Desfrutar de um cigarro. Durante uma conversa, ao longo de um bom vinho, por entre os primeiros olhares, acompanhando longas gargalhadas. Pára tudo! Querem pagode e boa disposição, vão para a televisão. Pois. Numa sociedade sem moral e bons costumes, onde se quer implementar regras à viva força, é preciso disparar para qualquer lado. Mesmo que os franco-atiradores sejam tão culpados como aqueles sobre quem se dispõem atirar – ou estão a ver a ministragem toda a debandar dos restaurantes só para puxar do belo cigarro? ‘Tá bem, abelha. Diz que sim.
Olhem, tirem-nos tudo. Não nos deixem nada. Qualquer dia revistem-nos também as cuecas, para ver se escondem alguma coisa que vos interesse. A sério. Estão à vontade. Para quê deixarem-nos qualquer coisa realmente nossa, escolhida por nós? Liberdade? Ah! Livre-arbítrio? Oh! Poder de decisão? Credo!


*O mundo é um bidé, prova disso é que depois do sururu que foi o manifesto anti-Gallo, acabei a trabalhar na agência que fez o dito. É aqui que se escreve
há coisas fantásticas, não há?

sábado, março 10, 2007

Banda sonora para o fim do mundo


Não quero sentir isto, não quero pensar nisto, mas se por um acaso estranho e grotesco o mundo quiser-se acabar (um dia o mundo acaba, ou eu acabo para o mundo, o mundo acaba sempre para cada um de nós, num segundo o mundo dá a volta e chega primeiro à parede onde brincamos às escondidas), já está banda sonora gravada para esse momento: chama-se NEON BIBLE, e os arquitectos dessas paredes sonoras de quinta essência são os Arcade Fire, ou a banda rock que tem o condão de fazer músicas que levantam mortos. Se o mundo acabar, ficamos resolvidos. Em termos musicais. Mas como a música alimenta a alma, que alimenta a vista, que alimenta a fala, que alimenta a voz, que alimenta o tacto, que alimenta o gosto, se tivermos música, temos tudo. E, mesmo sem mundo, o mundo ficará um lugar melhor. Sinto um nascimento, penso numa ressureição, vejo o mundo a re-aparecer todo de novo, de novo-todo-novo, um mundo ainda sem mim, sem ti que me lês, sem ti que queria que me lesses, sem ti que sonhas que me lês e passas estas palavras na diagonal, um mundo virgem de humanos, um mundo lunar. Renascido, teria à sua espera, como banda sonora, NEON BIBLE, desses poetas da melodia e da harmonia que assinam músicas pelo nome de Arcade Fire, ou a banda rock que tem o condão de fazer músicas que remexem as entranhas de todos os eus. E, em questões puramente sonoras - que são as que realmente interessam, os nossos ouvidos levam o amor e o ódio através de flautas venezianas até aos nossos corações - tinha o mundo uma grandiosa recepção. Todas as vidas deviam nascer com música. Afinal, cada momento seu vai ser lembrado como uma música naquela vida. Mas que mando eu na vida? Que posso eu no mundo? Que sei eu das vidas? Que ouvi eu das músicas?

(...) Imagino pórticos, vejo o pôr-do-sol de todas as cores, ouço coros de igreja, sinto o pó e o medo das cidades abandonadas, assustam-me gritos de lugar nenhum, sorrio pelos que cantam em unissono, tropeço em casas destruídas, temo o barulho do vazio e do fim, vibro com explosões de alegria, e assisto à vida condensada em lágrimas perdidas na areia molhada: o fim do mundo, ou o princípio do mundo, a existir, tem de ser magistral...

quinta-feira, março 08, 2007

Dia Mundial da Estupidez (mais um)

Por que é que o dia de hoje é um embuste:
a) "A posição nas sondagens de Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista às eleições presidenciais francesas, parece obedecer a parâmetros obscuros."
b) "Depois de um pico, muito acima do seu rival, Nicolas Sarkhozy, do centro-direita, desceu em queda livre para um segundo lugar muito frágil."
c) "As oscilações das sondagens reflectem talvez as variações imponderáveis da imagem de Ségolène Royal, enquanto mulher."
d) "Ségolène, mãe de quatro filhos, companheira de François Hollande, secretário-geral do PS, daria uma imagem inédita de uma francesa comum, de espírito livre, independente, não casada (...)"
e) "Além disso, é linda. Não como uma star, mas como uma mulher o poder ser pela sua feminilidade. Seria este o factor imprevisível que está a mexer com o eleitorado: Ségolène é uma mulher e aparece como tal, antes de aparecer como política."
f) "Será que o ser mulher pode mudar radicalmente a maneira de fazer política? Em quê? Haverá uma essência masculina da política que seria, no fundo, sexista e machista, como o pretendem certas teses feministas?"

excertos retirados de um ensaio assinado por José Gil, na VISÃO

quarta-feira, março 07, 2007

FaRtA dE vOcÊs:

Das duzentas e cinquenta e três novelas por cada dois canais generalistas privados. Dos anúncios a bancos e seguradoras que fazem qualquer estômago dar sete voltas ao Marquês de Pombal. Das manchetes do "Correio da Manhã" e do "24 Horas". Das greves da função pública, da semi-pública e da puta que a pariu. Das mentes infelizes que, mal chega o fim do mês, investem os 600 euros de salário em gasolina e trazem o carro para o trabalho, criando filas maiores que o pessoal que, há dois anos, queria comprar bilhete para U2. Do Herman José, que insiste em permanecer teimosamente nos ecrãns de televisão, destruindo o mundo de parábolas e magia que criou ao longo da minha infância. Do Francisco Louçã e do seu discurso bafiento, tão recto como um supositório enfiado à pressa pelo cú acima, e aqueles pulloverzinhos amarelos cheios de bulor pseudo-saudozistas que justificam qualquer tendência terrorista nos 389 metros à sua volta. Dos grandes, médios e pequenos portugueses, que se arrastam em mupis ridículos - vai o país para o fim do primeiro trimestre e o diz que é uma espécie de mega concurso, para além de ainda não ter chegado ao fim, insiste em cruzar-se connosco na rua, ele e aquelas frases nulas, totalitário ou solidário?, tenham dó de mim e de mais uns milhões de alminhas, ninguém merece tão fraca e nula inspiração. Dos debates pós-referendo, parece que quem fez um aborto foi Portugal, será que toda a gente sabe e ninguém diz nada?, parece que anda aqui um pessoal da pesada aos encontrões e cotoveladas a falar no tema até ele ser uma nódoa negra tão negra que já ninguém o vê, caramba, temos o mérito de conseguir estragar tudo sem nunca fazermos nada, dá para direccionar os batráquios para coisas mais positivas, tipo criancinhas a sorrir? - temo que não. Dos apitos dourados e de todas as cores, dos Pintos da Costa deste mundo e do outro, dos amigos dos amigos dos amigos, tudo farinha do mesmo saco, venha de lá o velho do Restelo e prenda-os de uma vez por todas, se não nem a madame Morgado consegue ter mão nisto! Do carrossel em que se transformou a minha geração, uma bola de neve de proporções dramáticas chamada "geração recibo verde", que não tem nada, não ganha nada, não possui nada, não vence nada, não é dona de nada, só tem de fazer, de se submeter, de aprender, de ouvir, de aturar, de esperar, de aguentar... Dos senhores que estão à frente dos destinos da Nação e nâo vêem isto, ou não querem ver, faz-se o maior coração do mundo na Praça do Comércio e somos os maiores a fazer corações, mas nem 1/5 de nós todos sabe o que é o Guinness Book, nem 1/5 de nós todos sabe ler, nem escrever, nem assinar, nem sabe que sente com o coração, e se em vez de fazermos corações de papel enchêssemos os corações das pessoas com vida, vida a sério, e parássemos de uma vez por todas de andar a brincar às casinhas, aos Legos, aos médicos, aos polícias e ladrões, quem tem 4 anos tem 4 anos no B.I., quem tem responsabilidades tem responsabilidades no B.I., tinha alguma graça se, de vez em quando, desse para ter orgulho no país que tenho e não naquele que gostava de ter. É muito giro sonhar mas, já que estou viva (e cheia de vida) apetecia-me, para inverter um pouco a ordem das coisas, viver. Será demais pedir a vida em vez do sonho?

terça-feira, março 06, 2007

A felicidade em momentos

Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna rídiculos. A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria. A felicidade são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido. E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm a forma de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança. Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, que se possam viver de novo, para de novo chegar ao fim e de novo a esperança e de novo o fim. Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos.
José Luís Peixoto, in Uma Casa Na Escuridão

segunda-feira, março 05, 2007

Pois...

NOTA: Carinhosamente roubado aqui

sexta-feira, março 02, 2007

Post "este blog é só bom humor"




Gostas das imagens, bebé? Ontem tinhas-me pedido alegria, ganda 2007, a mim ninguém me pára, isto é tudo nosso, que loucura de dias, sou uma doida, ai a vida é tão boa, este ano é que é, etc, etc... não foi? Então este "IMPROVE YOUR FLEXIBILITY" é para ti. Aposto que aí na China deve ser mais fácil encontrar um panda de triciclo do que uma miúda gira numa rua deserta!