sábado, março 10, 2007

Banda sonora para o fim do mundo


Não quero sentir isto, não quero pensar nisto, mas se por um acaso estranho e grotesco o mundo quiser-se acabar (um dia o mundo acaba, ou eu acabo para o mundo, o mundo acaba sempre para cada um de nós, num segundo o mundo dá a volta e chega primeiro à parede onde brincamos às escondidas), já está banda sonora gravada para esse momento: chama-se NEON BIBLE, e os arquitectos dessas paredes sonoras de quinta essência são os Arcade Fire, ou a banda rock que tem o condão de fazer músicas que levantam mortos. Se o mundo acabar, ficamos resolvidos. Em termos musicais. Mas como a música alimenta a alma, que alimenta a vista, que alimenta a fala, que alimenta a voz, que alimenta o tacto, que alimenta o gosto, se tivermos música, temos tudo. E, mesmo sem mundo, o mundo ficará um lugar melhor. Sinto um nascimento, penso numa ressureição, vejo o mundo a re-aparecer todo de novo, de novo-todo-novo, um mundo ainda sem mim, sem ti que me lês, sem ti que queria que me lesses, sem ti que sonhas que me lês e passas estas palavras na diagonal, um mundo virgem de humanos, um mundo lunar. Renascido, teria à sua espera, como banda sonora, NEON BIBLE, desses poetas da melodia e da harmonia que assinam músicas pelo nome de Arcade Fire, ou a banda rock que tem o condão de fazer músicas que remexem as entranhas de todos os eus. E, em questões puramente sonoras - que são as que realmente interessam, os nossos ouvidos levam o amor e o ódio através de flautas venezianas até aos nossos corações - tinha o mundo uma grandiosa recepção. Todas as vidas deviam nascer com música. Afinal, cada momento seu vai ser lembrado como uma música naquela vida. Mas que mando eu na vida? Que posso eu no mundo? Que sei eu das vidas? Que ouvi eu das músicas?

(...) Imagino pórticos, vejo o pôr-do-sol de todas as cores, ouço coros de igreja, sinto o pó e o medo das cidades abandonadas, assustam-me gritos de lugar nenhum, sorrio pelos que cantam em unissono, tropeço em casas destruídas, temo o barulho do vazio e do fim, vibro com explosões de alegria, e assisto à vida condensada em lágrimas perdidas na areia molhada: o fim do mundo, ou o princípio do mundo, a existir, tem de ser magistral...

7 comentários:

Joana disse...

Parece que tenho de ir ouvir!... só por precaução...!
:)

bjs

cat disse...

Grande catarse a ler o teu texto! Daquelas dos teatros antigos da grécia :)
Perfeito: " (...) o fim do mundo, ou o princípio do mundo, a existir, tem de ser magistral... " .

:)

Nuno West disse...

Também eu andava a pensar na escolha de uma banda sonora.

Bj.

Ella_and_Louis disse...

i like it a lot!
Baci

MysterOn disse...

No cars go!

Suzi disse...

Bonito texto!
"Todas as vidas deviam nascer com música." Concordo ple-na-men-te!
E tudo, na vida, do início ao fim, do existir ao fenecer, tudo! deveria ser mesmo magistral.

El-Gee disse...

Conheco tres ou quatro musicas deste novo CD, revejo-as no teu texto e, no parágrafo final, consigo imaginar as restantes.

Um espanto de texto. A sério, acho que até vou reler.