sábado, março 24, 2007

Um ano e 416 posts depois...

A menina vem da cidade maravilhosa, onde enterrou asneiras na areia menos movediça de Ipanema, esfrega as mãos de semi-contente, e prepara-se para reconstruir o castelo que o medo deitou ao chão. Só que o tempo ficou para trás, não esperou por ela, e restam apenas noites em claro, lágrimas pretas e gritos no vazio, já não há ninguém para a ouvir. É altura de subir a esse carrossel a que chamam vida, tomar-lhe o comando, e não olhar para as coisas que teriam sido. Para onde mandar os medos, encontrar as palavras, esvaziar a alma, procurar o rumo? [...]

Cria-se um blog. Entregam-se os dados à virtual folha em branco, aceita-se o jogo dos novos e aventurados amanhãs, alargam-se os laços, os cabos, as ancoras, os traços. Põe-se a vida toda numa página aberta e faz-se o compasso da ressurreição – a partir de agora, tudo vai saber tão bem como uma gota de água na aridez do deserto. "A vida é uma obra-prima". Mas não é, claro. Mas quer-se muito que seja. Fecham-se os olhos e a vida é o que quisermos fazer com ela, fecham-se os olhos e a vida é tudo nosso, decisões nossas, sonhos nossos, vontades nossas, anseios nossos, crenças nossas, devaneios nossos, tudo nosso, o arco-íris, a mais perfeita onda a rebentar no mar, o cheiro das torradas com azeite da minha avó, as manhãs azuis da minha infância, o meu avô a rir-se com os meus sustos, os livros Patinhas comprados no quiosque, os fins-de-tarde na praia de Albufeira - no tempo em que ia ser criança até ao fim dos dias, a música que me irrompe espírito adentro, madrugada fora, eu ao colo do meu pai, a frase perfeita, uma cama acabada de fazer, o dia em que voltei das compras a chorar e a minha mãe voltou comigo para trás, o olhar que nos arrepia mais que o frio que corta árvores ao vento, os meninos à volta da fogueira, tudo nosso. Fecham-se os olhos. [...]

Um ano depois, abrem-se os olhos - só para ver o que mudou. O que mudei. E está tudo aqui. Só faltam os textos que não escrevi, os banhos de mar que não tomei, as noites que não dormi, os livros que não terminei, os jornais que não li, os filmes que não apreciei, as pessoas que não amei, os trabalhos que não fiz, as canções que não escutei, os amigos que não conheci, o tempo que não recuperei. Ainda quero ser mais feliz do que a felicidade, continuo a querer ver o mundo à minha maneira, mantenho a minha ânsia de futuro, guardo os meus fantasmas da meia-noite e outras horas e, mesmo sabendo que não aprendi nada, que não vi nada, que não tenho nada, e que não sou nada, a vida tem de ser uma obra-prima. E só quem a pega de caras se arrisca a levar coices de alegria inqualificável.

***** A todos quantos passaram por aqui, e me ajudaram a pegar de caras o medo de me escrever, um obrigado sem tamanho. Nestas bandas não se servem clichés nem considerações made in farinha Amparo, por isso sinto-me à vontade para dizer que, sem vocês, esta minha jornada virtual teria sido impossível. São sempre vocês que escrevem comigo, a quatro e a mil mãos, o próximo texto.

7 comentários:

Ana disse...

Parabéns pelo aniversário da tua "obra-prima"!
Mais que 1 blog, é assim como descreves neste teu texto, um gritar e chorar de palavras e emoções que fazem parte de ti e por mais que a gente o leia e descodifique á nossa maneira, só tu sabes e sentes o que cada palavra pesa.
Mais que 1 simples blog, é um pedaço da tua vida.

Beijinhos,

Anokas

amarga disse...

Incrível como sem nos "conhecermos" nos perdemos todos uns minutos diariamente em "visitas". Quantas pessoas circulam pela nossa vida e nao temos o cuidado nem o interesse de saber como estao?Por fazeres parte do meu dia-a-dia, parabens e obrigada por tantas vezes transformares em palavras tantos sentimentos comuns :)

Joana disse...

Parabens!
E apesar de ser uma leitora bem novinha, gosto muito!
Ainda bem que abriste as páginas da tua vida!
É bom lê-las!
bjs

Daniela disse...

Parabéns...
Como vês fiquei fã!
Parabéns pelas tuas palavras...
Pelas tuas ideologias e valores...
Acima de tudo pela tua boa disposição!
Bjs
D

El-Gee disse...

Se calhar este espaço deu-te a almofada que precisavas para abafar o teu choro.

Uma almofada de desconhecidos que nao se importavam de gramar com os teus cabelos molhados e com as tuas lagrimas, desde que pudesse, ela também, falar-te, responder-te, aconselhar-te, elogiar-te.

E nessas noites sem sono descobriste uma realidade para além da tua, um mundo à parte de pessoas que nao passam de conceitos.

Descobriste quem te ouvisse, assimilasse e comentasse, sem interferir na tua realidade física.

Uma almofada anónima e silenciosa, amigas das noites mais escuras mas inerte e esquecida, quando o dia nasce.

às vezes Ele, às vezes Ela disse...

Li isto hoje. Confesso que a forma como te "despes" e traduzes em palavras a vida vivida é qualquer coisa...

Ele

Mir disse...

Parabéns! Que venham mais!