terça-feira, março 27, 2007

Silêncio, que se vai fazer teatro...

***** AUTO DA ÍNDIA, Gil Vicente *****

Moça
- Ai, senhora! Venho morta!
Noss’ amo é hoje aqui.

Ama - Má nova venha por ti
perra, excomungada, torta.

Moça - A Garça, em que ele ia,
vem com mui grande alegria;

per Restelo entra agora.

Por vida minha, senhora,

que não falo zombaria.

E vi pessoa que o viu

gordo, que é pera espantar.

Ama - Pois, casa, se t’ eu caiar,
mate-me quem me partiu!

Quebra-me aquelas tigelas

e três ou quatro panelas,

que não ache em que comer.

Que chegada e que prazer!

Fecha-me aquelas janelas,

deita essa carne a esses gatos;

desfaze toda essa cama.

Moça - De mercês está minha ama;
desfeitos estão os tratos.

Ama - Porque não matas o fogo?

Moça - Raivar, qu’ este é outro jogo.

Ama - Perra, cadela, tinhosa,
que rosmeias, aleivosa?

Moça - Digo que o matarei logo.

3 comentários:

Nuno West disse...

:)

Porque te apeteceu?

Miss K. disse...

porque me apeteceu, claro - é sempre por isso. e porque era dia mundial do teatro (e do circo, acrescento), e gil vicente é um dos nossos autores maiores.

Joana disse...

... do Auto da India a minha parte preferida é aquela em que ela está em casa com o marido... e tem o amante na ruas a atirar-lhe predinhas às janelas!
:)
tem o seu quê de telenovela mexicana!
lololl