quarta-feira, março 28, 2007

Portugal perdeu a bandeira

No dia em que acordei para a estupidificação que é o meu país, estava tudo no mesmo sítio. Céu cor-de-burro-quando-foge, bandeirinhas do Carrefour abanadas pela trova do vento que passa, buzinas e buzinões matinais, semáforos rasgados pela pressa do atraso, cigarros fumados num compasso de espera entre camas e secretárias, bancários de ar bonacheirão a saírem para o primeiro pastel de nata, autocarros cheios de pessoas e vazios de gente, polícias à espreita da próxima multa, estafetas a cruzar espacinhos impossíveis, dois homens (são sempre dois) numa carrinha de caixa-aberta a apreciar as condutoras do lado de modo grosseiro, pastelarias à pinha para os debates roubados à noite anterior, aviões que se passeiam demasiado próximos dos prédios amarelos do Campo Grande, e o resto. Era mais um dia, nem por isso um dia a mais. Na véspera o país tinha-se vestido de gala e sentado ao sofá para assistir à maior homenagem ao fascismo desde o dia em se deram cravos em vez de tiros. Dez milhões de alminhas, umas mais que outras, mas diz que o todo são dez milhões, perderam a vergonha e teclaram “Salazar”, quando podiam ter teclado mil nomes de liberdade. Não estavam sob efeito do ópio, porque o ópio deixou, nessa noite, de ser do povo. Não estavam na cela escura e negra em que não se pode falar, nem pensar, menos ainda dizer. Não estavam a tentar encontrar o Euromilhões premiado (mas, com tanto lobby do chá, decerto muito se lucrou por aí). Estavam em frente ao computador onde vêem sites porno e onde praguejam contra os melhores amigos. Estavam em casa das amantes, nos botequins de esquina, na quinta que a noiva comprou, no shopping aberto aos seus desejos, à saída de uma late-night session num cinema hardcore, no estádio do clube do coração, na retrete – com uma pilha de Lux’s e Caras e Flash’s e afins, no carro que acabaram de estrear, na espera do tapete rolante do aeroporto enquanto as malas caribenhas não chegam, numa loja da Vodafone a comprar o último grito em comunicações móveis para ficarem mais perto do que é importante, em redor de uma lareira gasta pelo fumo do amor que já morreu, e em todos os lugares. Assim, livres e deuses de si, opinaram que o senhor que proibia a opinião era o maior português em séculos de portugueses. Esqueceram o “Último Tango em Paris” porque afinal nunca o chegaram a ver, era um atentado à moral e bons costumes. Puseram para trás o medo quando eram seguidos na rua, as palavras que nem podiam pronunciar, os sítios que não podiam visitar, as eleições em que não podiam votar, os amigos que desapareceram desaparecendo, as tareias que os mais afoitos levaram, a África que se despedaçou, as canções riscadas da rádio, e tudo o que nunca deve fazer uma vida. Pegaram no telefone que os liga a este mundo e ao outro, ligaram o computador que lhes desbrava universos, e disseram alto e bom som que o senhor-ditadura era o maior de todos quantos fomos na nossa já grande eternidade. Enquanto eu dormia, calada por uma amigdalite perversa, era assim que se assumia o meu país. Quando acordei, senti um nojo incómodo, uma sujidade envelhecida, uma vergonha adormecida. Lá fora estava tudo na mesma, porque os pequenos portugueses tinham-se assegurado que tudo ficará sempre na mesma – pequenino, triste, bolorento, tacanho, abortável, cinzento. Mau.

28 comentários:

El-Gee disse...

Nao me canso de repetir que escreves como so os melhores escrevem. O teu retrato de Lisboa tambem é muito muito muito real. es uma deusa das pequenas coisas.

Olha quanto ao que dizes, acho que devias ter nocao de que nao se tratou de uma eleicao ou de um referendo. nao. foi um concurso. ninguem elegeu ninguem. Olha eu nem vi o programa, vê lá tu. Nao foram os portugueses que elegeram salazar o maior de sempre, foram os votantes nesse concurso. bom, isso é o primeiro ponto, por isso don't blame um país pelo resultado do concurso.

quanto a salazar em si. enfim. eu nunca votaria nele, e eu sou tambem um grande apologista da liberdade. Mas eu so conheco democracia. nao sei como era dantes. e ja ouvi muita gente de todas as classes sociais dizer que se vivia bem.

nao sei. conceptualmente, oponho-me, mas conceptualmente tb me oponho ao sistema politico partidario e partidarista de hoje, razao pela qual, permite-me a pequena loucura, acho que devemos é ser deuses de nos proprios e parar de nos queixar dos outros.

olha, a verdade é que me estou completamente a cagar para esse concurso e para os outros todos e quero é ter saude e ser feliz com os meus amigos e familia.

Miss K. disse...

Infelizmente foi muito mais que um concurso. Foi uma sondagem desenquadrada de estados de alma, de maneiras de ser e pensar. Quem votou fê-lo de liberdade na mão, de vontade no punho, com mensagem para enviar - vêem no homem que afastou Portugal do resto do mundo o maior português de sempre. E sim, foi o meu país que votou, porque este é o mais claro retrato dos Zés, Marias e Joanas que fazem o meu país - os mesmos que fazem greves (impossíveis nesses "anos dourados" salazaristas), os mesmos que levam a puta de vida que querem porque a liberdade lhes permite escolher. Não saberias, nem eu, o que é um blogspot se vivesses em ditadura - não precisarias, aliás. A tua mente estava suficientemente formatada para te esqueceres que podes pensar por ti.

A democracia, como disse Churchill, não é certamente o sistema de governo perfeito. Mas, dos que existem, é decerto o melhor. Pô-la em causa, mesmo num programa de televisão, é ter vista e pedir para lhe cegarem os olhos.

às vezes Ele, às vezes Ela disse...

Elogiando-te o poder da escrita (que é já um dado adquirido), recomendo-te esta (mais uma) opinião:

http://gloriafacil.blogspot.com/2007/03/diz-que-e-uma-espcie-de-palermice.html

Ele

Joana disse...

"Lá fora estava tudo na mesma, porque os pequenos portugueses tinham-se assegurado que tudo ficará sempre na mesma – pequenino, triste, bolorento, tacanho, abortável, cinzento. Mau."

Assumo plágio do teu post para o meu comment.
Pouco criativo. Muito português.
bjs

Pedro Santiago de Tânger disse...

no mínimo, um retrato genial! GENIAL!Portugal dos pequenos consegue ser sempre tão grande que se perde por entre o tanto que esteve sempre por vir! isto é o nosso pequeno, e tornado ainda mais pequeno, país.

Não me digam que é indiferente, não me digam que se estão a cagar para um concurso onde votam milhares de pessoas que querem marcar um ponto nos i que faltam mas que nunca serão preenchidos desta forma.

Citando José Gil, (mas sem citar as suas palavras exactas) em Portugal nada acontece, em Portugal dá-se o fenómeno da "não Inscrição", onde tudo se passa sem que grave o seu caminho na passagem.
Este foi mais um caso de um fenómeno que revela as cicatrizes mal saradas deste país e que "magicamente" parecem nunca ter acontecido...no dia seguinte não se falava de nada, no dia seguinte, já se dizia que o programa era uma fantochada, no dia seguinte Salazar ou Cunhal não tinham liderado um programa mediático, visto por milhões...no dia seguinte nada se passou, tal como no dia antes.

MysterOn disse...

Brutal!

Keep it on!

Blogger formerly known as kalash disse...

Este também é um reflexo desta liberdade que temos. A liberdade de uma minoria de estupidos que assumem tudo como adquirido como dizes. A memória do nosso querido país é muito curta...

Suzi disse...

total falta de tempo, miss k.
não li o post...
:o(

mas passei pra te deixar beijinhos de boa noite (aí, já podemos dizer "boa madrugada")

Daniela disse...

Miss K. sem dúvida que dá gosto ler as tuas palavras...

Quanto ao concurso, eleição, votação ou whatever... irritou ah se irritou!!!

El-Gee disse...

P.S. Tanger,

Este concurso teve 210.000 votos.

Há 10.000.000 de portugueses.

Estamos a falar de 2.1% de votantes, num universo de 10.000.000 de pessoas.

E isto ignorando que há gente que vota duas vezes.

Ainda para mais o voto, às tantas, pagava-se. Conclusao: a classe media-alta, mais conservadora, mais rica, mais salazarista, votou mais do que as restantes.

O resultado do concurso é o espelho de um sentimento de salazarismo muito patente na alta burguesia portuguesa, que foi uma classe muito beneficiada pelo regime salazarista.

O resultado nao me surpreende minimamente.

O que me surpreende é a i-m-p-o-r-t-a-n-c-i-a que se está a dar a este programa.

El-Gee disse...

miss k. já agora uma provocação:

Uma democracia de Isaltinos ou uma Ditadura de Salazares?

É que o Salazar, ao menos, nao roubava o dinheiro que os contribuintes pagam. Eu por exemplo dou mais de 500 Euros por mes ao Estado, e sei la quanto dele nao vai parar aos bolsos dessa escumalha partidária..?

Sim, Liberdade acima de tudo. Liberdade, Liberdade.

Mas, imaginemos que haveria um Salazar eleito. Tudo igual, mas ele teria sido eleito e permitia liberdade de expressao, de manifestacao e de imprensa.

Aí, já era um grande homem.

O meu ponto é: abstraindo-nos da liberdade, Salazar é melhor governante que a MERDA partidaria que para aí anda toda.

Ou nao?

(Este comentário é um brainstorming e nao se trata de uma opiniao vinculativa porque eu proprio, como muita gente da minha geracao, tenho mixed feelings face a Salazar.)

Pedro Santiago de Tânger disse...

ODE À IGNORÂNCIA

ignorância n.º 1:

"ja ouvi muita gente de todas as classes sociais dizer que se vivia bem."

ignorância n.º 2:

"oponho-me, mas conceptualmente tb me oponho ao sistema politico partidario e partidarista de hoje"

incongruência catastrófica:

"a verdade é que me estou completamente a cagar para esse concurso e para os outros todos e quero é ter saude e ser feliz com os meus amigos e familia." (e fumar umas no meio e curtir a cena toda ya, não?!)


El-gee...é por causa de atitudes indiferentes, inconscientes e profundamente ignorantes que existe a apologia da "incoltura" neste país. Há gente inteligente, claro que há, não és uma delas.

Mas, sinceramente, estar-se a cagar pa cenas destas porque durante o Salazar até se estava bem...vai estudar, talvez digas menos disparates. Talvez...porque não tenho grande esperança nisso.

Miss K. disse...

Caro El-Gee,

A tua posição sobre este assunto não me provoca, dá-me dó. Se achas ridículo a importância que se está a dar ao assunto, porque continuas a comentar?

Sinceramente, pelo que já li do que escreves, tens capacidades muito superiores para utilizares justificações tacanhas como: "É que o Salazar, ao menos, nao roubava o dinheiro que os contribuintes pagam." / "Abstraindo-nos da liberdade, Salazar é melhor governante que a MERDA partidária que aí anda toda".

"Abstraindo-nos da liberdade"?! Como podes alguma ver pôr a liberdade de lado? Porque "ouviste dizer" que se vivia bem naquele tempo, como referes no primeiro comentário? Que argumentos fortes, estes...

Só tenho pena que te esqueças que as tuas noites "deluxo", as tuas Reginas Spektor sacadas da net, e outras coisas que tão bem descreves no teu blog, são produto dessa liberdade que desprezas.

El-Gee disse...

Pedro,

O que chamas de ignorância 1 e 2 são factos.

Que posso eu argumentar contra a ignorância 1?

Nunca vivi sob o regime salazarista, portanto só me posso basear em

1) relatos de quem viveu
2) posições conceptuais

Ora quanto a relatos de quem viveu, já os ouvi de todos os teores e aqui expliquei que conheço muita gente que diz bem de Salazar. Não sei se é a maioria, mas não é ignorância minha citar os outros! Aliás, até é uma prova de humildade citar opiniões contrárias à minha.

Quanto à “ignorância 2”, deves reparar que é mais uma vez uma prova de honestidade eu dizer que me oponho à forma de ascensão política de hoje, em que quem controla as nossas vidas são carreiristas e políticos de profissão, quando deviam ser técnicos especializados nas várias áreas.

Respeito se achas que o nosso sistema político actual é o indicado, mas não concordo. Repara, eu não me oponho à democracia, oponho-me à ditadura dos partidos, que é o que nós temos.

Finalmente, o que chamas incongruência não é incongruência:

eu estou-me de facto a borrifar para o resultado do concurso, como estou para o Big Brother, mas não me estou a borrifar para a discussão destes assuntos entre pessoas e em blogs. Peço-te que raciocines racionalmente e vejas a diferença: uma votação anónima interessa-me pouco, mas uma discussão como esta nossa considero de muito valor.

O que já não considero de valor nenhum são os teus dois últimos parágrafos, razão pela qual não vou descer ao nível de os comentar. (Porém, sugiro que da próxima vez que chamares de burro, fumador de drogas leves e debitador de disparates a alguém que não conheces, pelo menos o faças com alguma educação.)


K,

Continuo a comentar pelo que escrevi acima: pelo desafio intelectual de debater quem foi Salazar. É que eu não sei e acho que tu tambem não sabes, pelo menos a julgar pela idade que me parece que tens (<30).

Acho que interpretaste mal quando eu sugiro que nos abstraiamos da falta de liberdade. Ninguém mais do que eu ama a liberdade!

O que eu estava a propor era um exercício intelectual de julgar Salazar à luz de um paradigma hipotético – e irreal – em que havia liberdade.

Basicamente, estava a tentar fomentar uma discussão em que dissecávamos o homem/estadista Salazar, ao ponto de o podermos comparar com os de hoje.

Percebes?

O objectivo não é fazer a apologia de Salazar.

Não. Eu considero a liberdade o bem máximo, e como tal nunca preferiria um Salazar a uma democracia (ainda que podre) como a nossa.

O que eu estava a tentar fazer era pensar: “Não fosse o facto de ser um ditador, que tal era Salazar enquanto líder de um país?”

Pronto, não pegou este raciocínio, paciência, vou discutir este tema para outro lado. Não vos levo a mal, eu estava a ser sonhador e académico, vocês são mais apaixonados e pragmáticos.

Seja como for, para ser claro, devo dizer que, nos meus desinformados 23 anos, não sou pró-salazarista mas tambem não me identifico com o nosso regime actual.

Temos a liberdade, por certo, mas até quando compensará a liberdade tudo o resto?

Fica a pergunta.

(Mas se responderem agradecia que tivessem a dignidade de se cingirem ao argumento, porque se é para estar a ouvir insultos mais vale ir jogar à bola com os meus amigos.)

Miss K. disse...

El-Gee:

Não te posso responder porque:
a) para mim a liberdade compensará sempre a opressão;
b) apesar de ter apenas 25 anos, sei mais do assunto do que pensas - e não me fico pelo que "ouvi dizer", isso para mim não chega;
c) tanto eu como o Pedro teríamos dignidade suficiente para te dar umas lições de história, mas como te estás "a cagar", o melhor mesmo é ires jogar à bola com os teus amigos

Pedro Santiago de Tânger disse...

Bom, eu devo pedir desculpa por te ter atacado daquela forma mas cingi-me ao primeiro comentário que, para mim, não poderia vir de alguém que merecia uma melhor resposta. Quanto a isso reconheço o meu engano e, por tal, peço desculpa.

Quanto aos argumentos racionais que me levaram a desbaratar a minha raiva, tenho apenas a dizer que me faz a maior das confusões ouvir alguém dizer que "até se vivia bem sob o regime" quando eu conheço muitas pessoas que passaram fome e que sofreram atrocidades sob o regime.

Note-se que venho de uma família que, na altura, era sobejamente abastada, vivia em palácios, tinham 18 criados, etc...Metade estavam no próprio governo e a outra metade trabalhavam com o sistema. O meu pai foi preso, agredido violentamente pelos comunistas do 25/4. Por isso, como se pode imaginar, não me faltam opiniões positivas acerca de Salazar.

Porém, todo o meu ser me impele a pensar e a sentir autonomamente, pelo que procuro obter um juízo equilibrado desta questão. Abro os olhos e vejo o resto da população, a maioria. Falo com as "criadas" que passavam fome pois a sua farinha era racionada e não tinham pão na mesa, ou com os agricultores, pais do meu colega de trabalho, que sofreram horrores durante os invernos mal passados devido à escassa alimentação, vestuário e direitos de que dispunham. Falo com empresários que, na altura, não conseguiram expandir os seus negócios porque não eram "do interesse nacional" (como seria importar vidros de janelas duplas, coisa criminosa...) Falo com artistas e pensadores que foram sufocados intelectualmente, ou, até, mesmo com aquele senhor que ontem me contou que foi espancado pela PIDE (esse grande bastião do querido Salazar...faziam com que tudo "corresse bem") por estar a conversar com um amigo na rua nova do Almada...estavam a conversar sobre a cunhada de um deles que tinha morrido.

O que quero dizer com isto? É que é criminoso, isso sim, sequer aceitar um regime minimamente autoritário. É um atentado a tudo quanto temos agora, tudo quanto a raça humana conquistou.

Quanto ao actual regime partidário(cujo cliché da Ditadura Partidária eu desconheço por nunca ter sido definido)é a melhor das piores formas. Se há outro melhor? Na prática não conheço algum. Na teoria conheço muitos. Seria Comunista ferranho se me dessem uma boa casa para criar os meus filhos e uma boa escolaridade que lhes ensinasse a pensar. Mas não. Ainda no outro dia vim de Vilnius e assisti às mazelas inconsequentes e abrutalhadas do regime sovietico.

Cagar para isto? Para o Big Brother...não posso. Estou cansado de tomar uma atitude de negligência fâce a tudo quanto é, realmente, importante (pelas más razões). É fácil demais desresponsabilizarmo-nos dos problemas. Todavia, a responsabilidade de alguns é que faz com que alguns valores, aproveitados pelos outros, se tornem realidade.

Resumindo, peço perdão por te ter insultado. Tens razão. Mas não posso é aceitar que se defenda o Senhor Salazar sem, sequer, saber do que se está a falar. Quanto ao debate político, espero que alguém descubra um sistema mais representativo, sem dúvida. Até lá, espero que todos discutemos sobre o que preferimos.

Agora..."ouvir dizer" não basta para sermos pensadores autónomos. Aliás, ouvir dizer leva à ignorância, coisa que já vi não quereres abraçar.

El-Gee disse...

K,

a) É uma discussão que já tive muitas vezes e chego sempre à conclusão de que sim. Porém, acho que os ultimos 30 anos de liberdade têm trazido pouca seriedade. E para mim seriedade é algo quase tao importante como liberdade. Já agora, mais uma vez repito que estava a tentar julgar a pessoa de Salazar para alem da questao da liberdade.

b) Nunca disse que nao sabias (alias, nem sabes se eu sei ou nao sei), disse apenas que nem tu nem eu vivemos sob uma ditadura. Ainda bem que sabes muito, porque quanto mais informadas forem as pessoas, melhor.

c)Has-de me dizer onde é que eu disse que me estava a cagar para aprender, de historia ou outra coisa qualquer..? É que eu nao escrevi isso. O que eu escrevi foi que me estava a cagar para o resultado deste concurso. Quanto às lições de história, sou todo ouvidos. Podes começar. (Se quiseres, posso também ensinar-te algo, é uma questao de ver quem sabe o quê e quem pode ensinar o quê a quem. Tenho a certeza que tens muito a ensinar-me, e tenho a certeza que eu tenho muito a ensinar-te a ti. Já o Pedro nao sei, porque nao fui ao blog dele nem sei quem é, mas se aceitar ter algum nível no trato da minha pessoa, também é benvindo a uma conversa. Como ser humano que ele é, por certo terá muito para me ensinar, em vários ramos da vida, não só história.)

Miss K. disse...

El-Gee,

a) Assino por baixo do que o Pedro escreveu.
b) "estou-me a cagar para esse concurso e para todos os outros e quero é ter saúde e ser feliz com os meus amigos e família". Parece-me que quem escreve isto não está muito interessado em saber mais sobre o assunto, logo as "lições de história" são para esquecer. E com essa frase, além de te estares a cagar para o concurso, resumes muito bem os teus sentimentos em relação aquilo que queres saber sobre o estado do teu país, esse que te dá a liberdade que vês como dado adquirido.
c) Experimenta sair do Lux no verão e oferecer boleia a estrangeiras depois de uma noite de copos com os amigos, com o senhor Salazar no poder. Oh, temos pena, mas não há Lux... É um atentato à moral e aos bons costumes...
d) Viva a liberdade que permite esta troca acesa de argumentos. O Kelly, na China, não pode debater connosco - o governo proibiu o acesso ao blogspot... Dá que pensar, não?

El-Gee disse...

(O meu comentário anterior surgiu antes de ler a resposta do Pedro).

Pedro, o ouvi dizer no fundo é tao valido como as tuas conversas com a tua familia, com as criadas, com os artistas e pensadores, etc. Quando digo ouvi dizer, digo "falei com".

Mas acho que tens toda a razão na tua exposição, no que toca a Salazar. Eu sou um bocado menos drástico no que toca a louvar a liberdade acima de tudo, se calhar porque já nasci com ela.

A mim o que me assusta um pouco na relação da nossa geração com a memória de Salazar é que todos louvamos a liberdade e, assim, facilmente desfazemos salazar. basicamente, nao queremos saber de mais nada. Basta-nos saber que nao havia liberdade, para nao querer reflectir mais sobre ele.

Daí o exercicio que eu propunha, que era abstrair-nos do Ditador e concentrar-nos no estadista. Penso que levaste o exercício a sério neste ultimo comentário e respondes à altura: na tua opiniao, a falta de liberdade era tao premente que nao permite sequer que, hoje, nos abstraiamos dela. Vou reflectir na tua resposta. Como disse, eu nao tenho opiniao formada sobre isto e vim para aqui tambem em busca de opinioes.

Penso que o sistem actual é o melhor dos que existem, é certo, mas é um sistema que favorece o nepotismo, a corrupção, a troca de votos por favores. Hoje, a Honestidade é posta em causa, e a qualquer autarca que preste um bom serviço à câmara são perdoados roubos e desfalques.

Quando disse em cima, numa expressao verbal infantil, que ao menos salazar nao roubava, estou, muito a sério, a dizer: É certo que era um ditador, mas pelo menos era honesto. isto nao implica que fosse bom viver sob o seu regime, mas ao menos era honesto, e hoje em dia muitos politicos nao sao.

Penso que ha que reflectir, tambem, sobre as virtudes de salazar. nao foi o maior portugues de sempre, por certo, mas foi um dos mais influentes, e no meio de tanta influencia tambem havia virtudes.

Jamais as virtudes compensarao os defeitos, i.e., o autoritarismo?

Depende de quao a serio se levar a liberdade. Eu, como voces, acho que nao. Porem, creio que a liberdade caminha para um ponto em que eu me questiono sobre até quando poderei tolerar que me roubem impostos.

Se calhar, preferia que me aparecesse um gajo nao-eleito que me deixasse trabalhar em paz, do que um bando de carreiristas, que se enchesse à minha custa.

El-Gee disse...

K,

a) ja respondi ao q ele escreveu, eu ao tinha lido ainda

b) a interpretação é tua

c) e d)

Ja que andas a ler no meu blog, gostaria de te lembrar um post de 22 de Novembro que mostra que eu tambem aprecio a liberdade e que nao precisas de insistir mil vezes nessa tecla:

"Estes e outros pensamentos me percorrem enquanto me deixo embasbacar pela enormidade da praça. É um espaço alarve, frio, cinzento. Terrível. Edifícios austeros decoram as suas extremidades e espalham-se inclusivamente pelo meio da praça, guardados por uma infinidade de guardas primorosamente fardados, nas suas expressões sérias. Que tristes! Tristes vidas, as dos guardas e soldados, empedradas marionetas de um regime obsoleto.

Diz Maruja Torres no seu magistral relato de um périplo pela América Latina, Amor América, que “No hay nada más absurdo que una frontera, ni nadie mas idiota que el tipo uniformado que se siente importante porque cree que divide el mundo al exigir un papel.”.

Não há nada mais absurdo do que uma praça principal com centenas de soldados armados, nem ninguém mais idiota do que o tipo uniformizado que se sente importante porque crê que é respeitável ao exigir ordem à força da arma que traz ao ombro.

Eu, cidadão orgulhosamente livre de um país liberal, olho com escárnio para aquelas figuras tristes, dizendo-lhes, na linguagem universal da mente: “a mim não me metes medo nem impões respeito; a mim fazes-me pena e provocas-me gargalhadas de indiferença”.

Que livre me sinto ali no meio daquela opressão socialista, rodeado pelas bandeiras chinesas reverencialmente guardadas, mirado constantemente pelos olhos aparentemente benevolentes de Mao Zedong, um dos maiores assassinos da história, cujo enorme retrato está pendurado numa das extremidades da praça. Mesmo por entre todo o burburinho económico das suas enormes avenidas, roupas caras, pessoas bem sorridentes e empresas de todo o Mundo que ali se estabelecem, a China é orgulhosamente socialista, opressora, castradora. A Praça da Tiananmen, palco vivo e efeverscente de amores e desamores, primeiros passos e trambolhões, visitas turísticas e piqueniques, bicicletas e papagaios de papel, é, ainda hoje perigosamente ideológica, esmagadora e anónima. Triste. Arcaica.

Ridícula."

Miss K. disse...

Para a próxima lerei todo o teu blog antes de me servir das tuas palavras. Faço aqui um mea culpa.
E aproveito para lembrar que esta discussão, acesa e saudável, mas que já se torna tóxica e desgastante, não tem nada de pessoal. Por isso expressões como "já que andas a ler o meu blog" talvez sejam escusadas...

Saudações leoninas,
Miss K.

Pedro Santiago de Tânger disse...

Pensando nesse assunto, dos políticos de hoje, terei de concordar com o desfalque que existe entre o que eles deveriam ser e o que são realmente. Muitos "enchem-se", é verdade. Mas qual a solução para isso?

A meu ver, passa muito pela educação (base) e por um sistema judicial devidamente apetrechado para a investigação e prosecussão de crimes de corrupção e de extravio de fundos. Quanto mais se faz cumprir a lei, melhor funciona o "sistema".

Quanto aos impostos, a verdade é que os páises nórdicos gastam cerca de 45% do que ganham em impostos! Mas têm um sistema que funciona de A a Z...nós não. Mas talvez caminhemos para tal. Eu não me importo de pagar impostos se forem bem utilizados...há muito que está a ser feito no Portugal do Interior que nós não vemos...pontes, estradas, instalações diversas, etc...isso é de valorizar.

Mas não, não gosto de ser roubado. Acho que ninguém gosta.

Quero é continuar a apostar no investimento como solução. Investimento na EDUCAÇÃO!...coisa que peca tanto em Portugal.

Quanto aos bons aspectos do Estadista Salazar, devo dizer que os estudei bem e, de alguma forma, aprofundadamente. Não nego que ele manteve Portugal fora da Guerra, que lidou com os Americanso de forma brilhante, que se posicionou estrategicamente no mapa do mundo, que reguou as finanças precárias do país, que criou, no início, uma identidade do que ele acreditava ser Portugal, que tinha um bom ensino, etc...Nada nego e reconheço.

Mas Hitler também fez coisas parecidas. Depois espirrou a sua insanidade e constipou o mundo. Foi um extremo ao que Salazar nunca chegou, ainda bem.


Mas enfim...acho que é claro onde quero chegar. Eu não sou capaz de dissociar o Homem do Feito, neste caso. Se fôsse fazer isso, iria estar a abrir um precedente para aceitar outros comportamentos semelhantes. Ele pode ter feito coisas boas mas devemos fazer o luto e restruturar o que foi feito de mal à consciência colectiva nacional.

A meu ver, ignorar o problema e reconhecer o que foi feito de bom é camuflar a verdadeira dôr que este povo ainda sente, é "passar por cima" daquilo que ainda nos faz pequenos, do nosso "trauma" colectivo...e isso não posso aceitar enquanto português que sou.

El-Gee disse...

K,

Claro que nao tem nada de pessoal!

(Mas nós tb nao temos nenhuma relação pessoal, por isso nao haveria aqui nada a perder.)

Achei muito útil esta conversa. Por certo retirou-me alguma produtividade ao trabalho, mas olha, nao se pode dar 100% todos os dias! *

El-Gee disse...

Pedro,

Concordo com tudo o que dizes, mas gostava de frisar os ultimos dois parágrafos.

Eu tambem nao sou capaz de dissociar o Homem da Obra, e é essa a razao pela qual penso que o exercicio que eu estava a propôr nao tem consequência no julgamento de Salazar, como um todo. Por isso lhe chamei académico.

Seria perigoso - é perigoso - louvar as qualidades de salazar e deixar os defeitos para segundo plano.

O exemplo que dás de Hitler mostra-o bem.

Porém, onde eu queria chegar era, como disse acima, que Portugal ainda nao se questionou verdadeiramente e seriamente acerda da memoria de salazar. o pacheco pereira descreveu isso muito bem num artigo ha uns meses no publico, que eu alias comentei na altura.

E acho que esse confronto com salazar deve ser feito de uma forma racional. a unica que conheco é julgá-lo componente a componete, para depois construir um retrato de quem ele foi.

Somando as partes, cada um poderá medir cada parte com a ponderação que achar mais importante, e fazer o seu julgamento de salazar como um todo.

Eu, como tu, nao consigo dissociar o Homem da obra, e para mim a soma das partes será sempre negativa, porque, de facto, a componente Liberdade pesa demasiado para que as outras a compensem.

(K, por mim agora calo-me, mas nao faço questao de ficar com a ultima palavra, por isso continuo aberto às vossas opinioes)

tomax disse...

É uma vergonha para Portugal e para os Portugueses. Como é possível?? É o pais da ignorância e do descrédito. Eu conheço quem tenha sido perseguido, torturado, preso por esse regime que a único sentimento que me transmite é nojo. Já para não falar da RTP, que mesmo, fazendo o programa nunca poderia autorizar que esse fascista entrasse na lista dos maiores portugueses. Quero lembrar que na Alemanha, Hitler não entrou na lista, e que Espanha e Itália (salvo erro) não foram em conversas e nem o programa fizeram, achando por ventura uma afronta a entrada de Mussolini e de Franco no sufrágio. E para quem diz que se vivia melhor, quero lembrar que Portugal na época do estado novo, era o país da guerra da fome da miséria e da ignorância, “Abençoada ignorância que tornas o Povo tão feliz” dizia Salazar. QUE VERGONHA PORTUGUESES!!!

às vezes Ele, às vezes Ela disse...

Miss K,
suponho que, no debate ideológico (e em liberdade) todas as opiniões, desde que devidamente fundamentadas (e, refira-se, honestidade intelectual) têm aqui, neste seu espaço, lugar.
Ter opiniões como dado adquirido/dogmas é próprio de regimes totalitaristas, ou não?

Parafraseando Primo Levi (que todos sabemos por onde andou, e o que passou...), este, há uns anos, dizia:
"(...) nunca podermos estar suficientemente seguros sobre as razões que levam um homem a ser criminoso: se o escolheu livremente, se para tal foi educado ou doutrinado, se foi o meio que o fez."
Levi, ainda tinha dúvidas; outros há que nunca se enganam.

Nota: ell-gee, este tele-lixo que reduz o ser um Grande Português ao que se viu, é um programa de mentecaptos para energúmenos (precisamente os que o viram e mais ainda os que nele participaram/votaram - teve, ainda assim, como RAP hoje na Visão graceja, um contributo educacional).

De resto, a discussão que suponho (não penso, nem creio) válida, prende-se com o facto de, também com meus impostos, se pagarem estas empreitadas - e chamar-se-lhe serviço público.

Miss K,
respeitosamente,
Ele

Miss K. disse...

Ele:
Nem comento a última frase do teu primeiro parágrafo. Conhecendo-me como me conheces (ou deverias conhecer), é de uma deselegância absurda.

às vezes Ele, às vezes Ela disse...

Miss K,
não era, de todo, com essa intençao.

(PS - Lendo agora dá essa ideia, sim. Sabes que sofro de incontinência verbal... Não era bem o que queria dizer... mas que, supunha, posições extremadas dificultavam o livre debate de ideias...)

Sinceras e mui honestas desculpas. Ele