segunda-feira, outubro 20, 2008

As mulheres, as mais ou menos, e as eternamente cabras

Entre a melhor amiga e o namorado novo, a mulher escolhe sempre o gajo, mesmo que a relação tenha começado há sete horas. Entre conversar sobre um futuro a dois ou cortar na casaca de três, a mulher prefere sempre dissertar sobre a vida de várias pessoas, principalmente se estiverem ausentes. Entre a possibilidade de uma nova amiga e a hipótese de lhe tirar as medidas, a mulher nem pensa duas vezes - o rabo é grande demais, as pernas são magras demenos... E, como se de uma verdade matemática se tratasse, sai o resultado final: as mulheres odeiam-se tanto que criaram uma guerra de sexo dentro da guerra dos sexos; uma luta invisível, ridícula e com danos colaterais muito acima dos níveis aconselhados pelo bom-senso.

Durante dois anos levei com as trombas, o mau-humor e a antipatia de uma secretária de redacção que, desde o primeiro minuto, teve como objectivo máximo fazer-me a vida negra. Conseguiu. Em quase 24 meses, não sei se alguma vez se riu para mim, mas tenho a certeza que foram mais do que duas, as vezes que me levantou a voz. Os centímetros que separavam as nossas secretárias eram um abismo entre o meu bem-estar e uma frente de ataque que nunca se sabia para que lado ia atirar: se a minha letra que, ao preencher os recibos, era demasiado pequena, se a falha (capital) em ao fim de quatro meses não saber de cor o número de contribuinte da empresa, se o volume da minha voz, a cadência dos meus risos e sorrisos para com os restantes colegas, se a minha indumentária, que poderia gerar tanto risinhos como comentários de casa-de-banho com as outras frustradas lá do burgo, etc, etc, etc... Foram dois anos em que calei tudo e mais alguma coisa - e sim, muitas vezes aguentei até à hora de saída para me largar num choro pegado no carro, porque a pressão era demais. Pressão? Como, se o meu trabalho era bestial? "Tu vieste invadir o espaço dela", explicou-me o meu primeiro editor, "e isso ela nunca te vai desculpar..." Oi? Está-me a falhar alguma coisa, não? "É que a redacção nunca teve uma jornalista mulher" (ah, pronto, então que traga as verdascas), e além disso "tu és assim magrinha, gira, e dás-te com toda a gente, e isso não lhe agrada muito" (ok, pronta para a crucificação). Ora se eu fui logo avisada que à secretária de redacção, quarentona e com cara de queque podre, não lhe agradava a minha figurinha feminina e alegre, o que é que continuei ali a fazer por mais 24 meses? Afinal não era a madame que escolhia quem de direito entrava e permanecia daquela sala? Era. Tanto era que foram precisos 18 meses para que dos recursos humanos me assinassem um papel, visto que a pessoa que nos assistia trabalhava nos mais negros corredores da maldade, e o meu pedido de nome+carimbo transformou-se numa verdadeira demanda do Santo Graal.
Quando me vim embora, e deixei a mal-f***** (era mesmo assim que se referiam a ti, querida, temos tanta pena) para trás, pensei estar livre desse tipo de crueldade feminina. Nada mais errado. As cabras perversas, as que são realmente putas umas para as outras, estão em todo lado, têm é caras e nomes diferentes. Trabalhem numa estação de serviço ou numa casa de costura. São todas infelizes, amarelas, traídas ou por trair, frustradas, bolorentas, irritantes e irritadas; andam em grupo, porque a união faz a força, e vivem as vidas dos outros porque trataram de estragar as suas com o seu mau-carácter; a última vez que deram uma gargalhada com vida foi no sétimo ano e têm, quase sempre, um anel de namoro mais-velho-que-a-Sé-de-Braga, porque nem o tótó do namorado as quer realmente desposar. Tenho visto umas destas, várias até, e normalmente baixo a cabeça. Ainda deixo que me abalem por ninharias de faca e alguidar. Penso muitas vezes em dialogar, estabelecer contacto e dizer "olá, não me julguem só porque não tenho 70 quilos a mais e uma colóquio de borbulhas na face esquerda", mas estou errada. Onde é que já se viu uma mulher que se diz de M grande ter de pedir desculpa por ser aquilo que é?  

13 comentários:

Bad Girl disse...

É mesmo assim. Mas nós, as nem tanto cabras por não sermos ressabiadas, temos mesmo de relativizar. As coisas e as pessoas têm a importância que lhes quisermos dar!
B3ijos

Lux Lisbon disse...

Miss!Uma vénia! Este post foi uma catarse até para mim!! Também sofro com vacas ressabiadas lá no desterro! daqueles que nos odeiam por sermos mais giras, mais magras, mais tudo de bom que elas! A primeira vez que pisei aquela redacção ouvi a sonsa da produtora a berrar:"Ai tão magrinha, quando ela entrar vão ter de me avisar senão não a vejo!"..Até hoje o que me impede de lhe responder às bocas é o meu fabuloso auto-controlo..mas algo me diz que não saio deste emprego sem lhe chamar vaca gorda!
kiss

Miss V. disse...

Estou a ver que em cada redacção o disco que toca já está riscado... é sempre o mesmo. No meu primeiro dia fui logo rotulada de "cinturinha de vespa" e avisada pela própria da gorda de serviço de que o Chefe de Redacçao (um quarentão com ar de septuagenário) era sua "propriedade". Ainda expliquei que namorava há anos e era fiel, mas isso não a impediu de me considerar um alvo a abater nos meses seguintes e de me desencantar as piores reportagens do mundo para fazer: desde ratos, a deficientes mentais eu percorri a Via Sacra toda naquela produtora... Acabei por me despedir por incompatibilidades com aquele mundo, mas 5 anos volvidos congratulo-me por ainda manter a minha cintura e a minha dignidade inversamente proporcionais. Beijinho e coragem.
És linda por fora e tão inteligente que deixas essas "Poucochinhas" da vida desconcertadas.
P.S. Sou tua fã!!

Sadeek disse...

"K"...já te disse que te adoro?! É assim o mundo do mulherio e acho que deve ser muito complicada a vida de uma gaja jeitosa...

Há sempre defeitos a apontarem...mesmo que sejam as melhores amigas...enfim....já desisti de compreender esta "guerra fria"...

BEIJOOOOOOOOOOO

Kitty Fane disse...

O caminho mais fácil é ignorar e tentar não dar importância nenhuma. Não é fácil, mas com o treino vai-se conseguindo. :-)

cristina disse...

Este post está fabuloso!
Tudo o que relatas é absolutamente verdade, infelizmente.
É uma pena que a maioria das mulheres não suporte trabalhar, ou conviver de perto, com outras mulheres, mais novas, mais bonitas, mais inteligentes, seja o que for.
Digo a maioria, porque nem sempre se passa assim. Eu, que tenho 41 anos, apesar de continuar gira (e modesta!!), pois que já não tenho a cinturinha que tinha, pois que o corpito está a obedecer às leis da gravidade (após 2 filhos, então...), pois que já tive menos rugas.
Mas...tenho o prazer de trabalhar com muitas mulheres, receber as estagiárias que vão trabalhar comigo, bonitas, elegantes, inteligentes, e uma lufada de ar fresco que só me faz bem!
Sempre gostei de me rodear de pessoas bonitas, no sentido lato da palavra.
Elas aprendem comigo, mas eu também aprendo com elas. E envelheço mais devagar...

P.S. as minhas rugazitas são essencialmente de rir, o mais possível, e em especial de mim própria.

Parabéns pela forma como escreves.
Beijo
Cristina

nika_liu disse...

Nunca se deve pedir desculpas por aquilo que somos! Somos assim, e se as pessoas que são importantes para nós, que nos conhecem, gostam assim, quem são os outros para merecerem a nossa consideração com o tempo que disponibilizamos a considerar uma tentativa de diálogo...sei que apesar de tentarmos não o fazer, acabamos dar demasiada importância a estas coisas que mais não servem a não ser para nos irritar...mas há q tentar sempre pensar que realmente somos superiores a todas essas mesquinhices, que parecem abundar nos locais de trabalho!

oh my! disse...

Afff..., este post veio mesmo a calhar! Neste segundo, mas neste exato segundinho passei por uma cena "por e-mail" com uma senhora colega que meu deus...! As mulheres enxergam competição até aonde não existe!

AnaLua disse...

Confesso que as minhas viagens aqui por outros blogs nunca se mostraram tão produtivas como esta. Post perfeito, perfeito; muito parecido também com um dos meus últimos. Só que no meu caso, aplico-o a todo um outro ambiente: FACULDADE. Ora, chega há uns anos uma miúda da (quase) aldeia à faculdade com que sempre sonhou; grande cidade, nova vida, lá em casa todos muito orgulhosos bla bla bla e outras lamechices. E o que encontra? Crianças que apesar de terem 18 a 26 anos parecem ter ficado encravadas nos 13 e vivem em pleno a sua estupidez e criancice.

Já não pode uma mulher ser loira de olhos azuis e muito sociável que as piranhas vêm todas atrás a cortar na casaca. "Ah porque é uma p***, ah porque come todos, ah que se anda a fazer a este e àquele". O pior é que eu não posso fugir e tenho de esperar mais uns aninhos. Pelo meio também vou descobrindo pessoas que afinal até são santas no meio daqueles diabos em forma de simpatia.
Obrigada por me fazeres aperceber que não estou sozinha nesta luta diária que é passar por aqueles corredores e ter de ouvir as mentiras que inventam só para se sentirem melhor.

EL disse...

As mulheres são do pior! Acabamos sempre por fazer um ou outro comentário, mas vamos encontrando umas. Acho que gente gira não falta por aí e até eu sei admitir quando vejo uma rapariga bem composta, jeitosa e que se sabe arranjar! O difícil está em sermos todas assim e aceitarmos que existe sempre alguém mais bonita, magra, alta (...) que nós. Aí está a diferença entre quem é humilde e quem é frustrado. Beijinhos e gosto do teu blog ;)

Moonbeam disse...

Este post não podia traduzir melhor a minha situação. Sinceramente, já começava a achar que eu tenho um problema ou pior, que sou um problema. A questão no meu caso, é que a dita colega até é bem mais elegante que eu, mas é capaz de ser só isso mesmo. Será isso que a faz tornar os meus dias num inferno? Está sempre à cata de alguma falha minha para me destratar e virar os outros colegas contra mim. E eu engulo em seco...que de longe é a parte difícil. Vontade mesmo era de lhe dizer umas "alhadas". Somos mulheres de fibra, é o que é!!!

Isabel disse...

Ai, há tantas assim. Já sofri muito com infelizes dessas, mas agora já não lhes dou troco. Elas não merecem.

Ninhas disse...

Minha querida! Não mudes nunca! As pessoas têm de aceitar as pessoas pelo que são e não pelo q aparentam ser ou pelo que querem q sejam! Eu, dona das minhas muitas gorduritas, txiiiiiiiiii adoruh assim escanzeladita e invejo a tua capacidade de "morfar" filipinos em x de comida normal ao almoço!
*beijufas da tua Secretária de Redacção!*