terça-feira, abril 10, 2007

Conversas com...

- E o que é que a vida te ensinou?
- Todas as coisas. A vida ensinou-me todas as coisas, todos os dias.
- Todos os dias?
- Todos os dias. Todos os erros. Todas as coisas, boas e más. Foi pela vida que as soube.
- E que fizeste com elas?
- Nada. Deixei-me viver, fui-me agarrando à vida para ela não me escapar. Se eu não a agarrasse ela fugia-me para sempre, e eu nunca seria dono de mim.
- Como podes dizer que és dono de ti?
- Porque escolho o meu caminho. Decido para onde não quero ir. Ainda estou a aprender a escolher estradas mais certas, é verdade. Mas pelo menos sei aquelas em que não me meto.
- Aquelas em que não arriscas.
- Essas.
- Só que há outras. O que é que a vida te disse das outras estradas?
- Vai-me dizendo tudo. Sabes que eu ainda não sei nada, ainda não sou nada. Porém, a vida sempre me disse para não temer uma amizade, renegar o desconhecido, voltar as costas a um grande amor, ou anular um desejo por medo. Essa é a estrada onde nunca podemos entrar, a do medo.
- Sabes que já lá estiveste…
- Sei. E sei que passo por lá muitas vezes, que dou voltas e cruzamentos maiores para me aproximar dela porque, apesar de tudo, o medo é confortável. Limita-nos e limita aquilo que podemos ter, ver, dizer e sentir. Com medo não fazemos, não somos. Ficamos quietos, quase em paz.
- O medo é paz?
- É uma paz podre, que engana. Uma paz que mina, destrói. O medo termina com aquele caminho que se ia percorrer de sorriso rasgado, afasta-nos dele para nunca mais…
- E depois, como é?
- Depois… Depois eu tento esquecer o medo, e prefiro perder-me nesses trajectos que a vida me segreda ao ouvido ou me traz de surpresa. Arrisco com ela, com a vida, e vou vivê-la para todo o lado.
- Quem vai contigo?
- Ninguém. Há um trilho de areia que comecei a caminhar há uns tempos, quando decidi que não queria passar pelo mundo como mais um ser calmo e quieto, e é por esse trilho que sigo. Sozinha. Muitas vezes pensei ter encontrado quem me acompanhasse na viagem…
- Mas…
- Mas não aconteceu. Continuo a tropeçar, a cair, a levantar-me, a tirar o pó, porque continuo a acreditar que aquele novo companheiro me irá dar a mão até um lugar qualquer.
- E não te deu a mão?
- Deu. Só que fugiu de mim quando sentiu que estávamos quase de braço dado…

6 comentários:

Joana disse...

Eu sei que não tem muito a ver com o que escreveste, mas quando acabei de ler o teu texto lembrei-me de uma coisa que ouvi outro dia e fez sentido para mim: "O tempo não cura nada. O que cura é o que fazemos ao longo do tempo."

O que mais me faz confusão é quem vive na permanente dúvida, no "deixa estar que logo se vê", "ai, que tenho tanto medo de sofrer", "eu já gostei de uma pessoa e não vou gostar de mais ninguém, nunca mais e essa pessoa nem me quer!" é tão confortável gostar de quem não gosta de nós, basta sentarmo-nos a lamentar, eu admito: já o fiz! não dá trabalho nenhum!
Assustam-me as pessoas que vêem a felicidade ao lado do seu bife com batatas fritas e conscientemente deixam-na na bordinha do prato e dizem "não presta!".

o caminho a areia é como as linhas da tua mão: mais bocadinho, menos bocadinho cruzam-se!

bjs

Dino disse...

_________
/obrigado\
\________/

Como é que um pequeno texto consegue encher um coração de alegria e vontade?

Miss K. disse...

ó dino, obrigada eu...

wednesday disse...

Conseguiste neste texto por aquilo que muita gente não consegue entender sozinho nem que lho digam todos os dias.

Ninguém disse que a vida era fácil, mas é preciso fazermo-nos à vida, que ela não se faz a nós.

Parabéns.

SA disse...

gostei muito deste texto. qualquer um de nós se revê nas tuas palavras. a última frase infelizmente acontece muitas vezes, é preciso ter sorte com as pessoas com que nos cruzamos

canetas disse...

Excelente.

Tens razão quando falas do medo.

Eu normalmente arrisco mesmo a pensar nisso. Tenho tanto medo de ficar preso nesse temor que, por vezes, nem ligo a timings.

Excusado será dizer que, muitas vezes, estrago tudo. Mas é assim. É melhor saber com o que é se conta (e fazer saber com o que é que se pode contar) mais cedo.

Neste preciso momento, e num registo muito mais fútil, ando com medo de fazer a minha declarão do IRS. Ando a adiar há uma semana e tal. Tenho medo do rombo que vai ser na minha conta.

Tem sido relativamente confortável.