segunda-feira, junho 26, 2006

Imagem possível do meu coração, domingo, entre as 20-22h


Cantei o hino de pé, arrepiaram-se-me as carnes e o cabelo, vi que só tinha sete cigarros, sentei-me, acabei o meu sumo de laranja (coincidência...), assustei-me com os primeiros minutos, ralhei contra as entradas sem explicação dos jogadores da outra equipa, partilhei o choro do Cristiano Ronaldo, comecei a ficar um nadinha nervosa, a Maria acendeu o primeiro cigarro, íamos comentar qualquer coisa, só que segundos depois estava de pé (ok, é mentira, estava aos pulos, aos gritos, histérica) a festejar o golo de Portugal. A emoção foi tanta, que se um repórter me perguntasse o que é que eu achava dos dotes físicos do Maniche, não duvido que o momento me levasse a dizer que o achava lindo, fantástico... Pormenores... Não deu para não fumar, para não bater o pé, para não gritar com o árbitro como se estivesse sozinha em casa. Depois de uma garrafa de água são minutos infinitos de felicidade-medo-felicidade-medo, tudo sempre no fio da navalha. Os senhores de Amesterdão a quererem magoar tudo o que era homem de vermelho e verde, a mandarem bolas para o céu, o Ricardo a apanhar umas, a desviar outras, um cartão amarelo, ninguém pediu, Ricardo Carvalho desvia outra bola, podemos respirar, sai outro cartão amarelo, e outro, espera, este é vermelho, dez, nove, estamos nove, somos nove mas temos uma gana de ir à final que eles não têm, eles não marcam. Tento explicar isto mentalmente à minha mesa mas ninguém me ouve. "Nenhuma bola entra na nossa baliza, garanto-vos". Então porque continuo a fumar cigarro atrás de cigarro, a levantar-me de cada vez que o Figo agarra na bola e diz aos outros "olha, esta é a diferença entre ser jogador de futebol e ser um grande jogador de futebol: os primeiros recebem a bola, passam ou correm - tu és um desses; os segundos pegam na bola, falam com ela, e então decidem o que é melhor, se passar, se correr, se fintar, se voltar para trás, se rematar directo, se parar um pouco, se dançar com ela, se ultrapassar cinco adversários sem nunca a perder - estes são poucos, só que eu estou lá", a fazer manguitos para os rapazes nórdicos, a encher-me de nicotina, a berrar se quase-por-muito-pouco falhamos um semi-golo? A resposta é: não sei. Maria, são só seis minutos de compensação, aguenta, falta pouco, e toda a gente quer gritar por Portugal mas ninguém consegue porque o jogo arrasta-se, estão dez milhões de almas a sofrer só em território nacional - nada é certo até ao apito do árbitro. É impossível não passarmos, é impossível. Outro cigarro? Não! 1-0 para Portugal, senhoras e senhores do Universo, aí vai a equipa das Quinas directa aos quartos de final do Campeonato do Mundo. Obrigada, seu Scolari, você pôs a selecção a sambar futebol, uniu o time e hoje agente vê que a galera quer ganhar tudo o que houver pra ganhar... Não há ninguém sentado, aposto que o meu coração, se tiver vida própria, anda há horas a passear pelo meu corpo. Já se pode chamar por Portugal a plenos pulmões, ganhámos! Vamos para outro mata-mata. Todas as pessoas têm um brilho nos olhos. Agora ninguém diria "vai-se andando...", à corriqueira pergunta "olá, como estás?". Photo moment whithout a camera... Cantar, ir para o carro a correr, buzinar, abrir a capota, sentir o espírito do Marquês, ver que podemos ser tão felizes, que somos, que nem sabemos que somos, ficar por ali, voltar para aqui, escrever isto depois de ver um resumo do jogo cinco ou seis vezes, imaginar coisas grandes, coisas maiores, e acreditar nisso tudo como acredito que estou viva no momento em que escrevo que acredito que estou viva. Acabo a sorrir sozinha, quando já estou a sorrir demais é porque está tudo dito. Força selecção. Obrigada pelos momentos em que nos fazes sentir maiores. O mundo da bola há-de continuar a ouvir falar de PORTUGAL até dia 9 de Julho. PORTUGAL não pára. (...) Fumei muito mais que os meus cigarros. Valeu a pena. Vale sempre a pena, quando a alma não é pequena. Esta está cheia de coisas boas.

3 comentários:

Tigas disse...

Acrescento apenas uma coisa ao teu texto, com a tua licença:

- Nada a acrescentar; descrição perfeita, do primeiro ao último segundo de jogo. Eu vivi esses cigarros numa qualquer churrasqueira em frente à estação de Aveiro, acabado de deixar uma pessoa que estava triste por regressar a Lisboa e porque no comboio não iam dar o jogo ("eu até nem sou fanática, mas pela seleção... vibramos todos!")... eram velhos e novos que me acompanhavam à refeição, que custou a deglutir...

O serviço que demorava horas, mas ninguém protestava, pois a bola era o importante? Onde está a redonda? O que lhe aconteceu? Quem chutou? Viste aquele tipo? Se fosse do Porto já estava na rua...

enfim, momentos únicos; a euforia do Marquês vivi-a na baixa de Aveiro, de regresso a Santa Maria da Feira, e quando todos me olhavam de lado para o carro por culpa da matrícula ser do outro lado da fronteira, assim que viam a bandeirinha na janela levantavam os polegares, saltavam, eu buzinava e toda a gente estava feliz, contente, alegre, e a já ninguém se lembrava de onde seria aquele carro...

Essa euforia, esses momentos que para mim foram breves antes de me fazer à estrada de regresso a casa, são as coisas que enchem, que animam, que dão força... por tudo isso e muito mais:

Obrigado pelo post miss k, e obrigado Portugal! FORÇA RAPAZES!

rui disse...

isso de fumar faz mal..

João P disse...

Ena! Coisa bonita! (o jogo e o texto)