domingo, junho 18, 2006

O sonho, sonhar, um pedido - e viver...

"Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar.

Em todos os teus actos da vida real, desde o nascer até ao de morrer, tu não ages: és agido; tu não vives: és vivido apenas. Torna-te para os outros uma esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater com a porta, na tua torre de marfim. E a tua torre de marfim és tu próprio. E se alguém te disser que isto é falso e absurdo não o acredites. Mas não acredites também no que eu digo, porque não se deve acreditar em nada."
excerto (incompleto) de um texto de Fernando Pessoa, n'O LIVRO DO DESASSOSSEGO



E se eu pedir muito, ensinas-me a sonhar? Queres-me ensinar a sonhar? Eu quero sonhar, sonhar perdidamente, voar daqui em asas rasgadas de pensamentos... Podemos sair do tempo, sair do espaço, e nunca mais voltar ao universo tal como ele é - criar o nosso próprio universo: paralelo, único, singular. Desde que me ensines o truque do sonho, a magia de fechar os olhos e ver cavalos a dançar nas nuvens, estrelas em vez de vazio, homens e mulheres despidos de medos e a enfrentar o fim da vida com o sorriso de um nascimento... Quero sonhar contigo, mas quem és tu?, não interessa, não importa, quero sonhar contigo para poder sonhar comigo, para planar sobre o mundo e ser feliz ao rir de tudo isto. Ensinas-me? Dás-me a mão, puxas por mim e levas-me para a terra dos sonhos? Dos teus sonhos? Para a terra onde te ensinaram a sonhar? Vamos até lá a caminhar com as tais pedras com que se fazem os castelos, vamos sem pedras nenhumas, vamos a flutuar, vamos de qualquer maneira. Fecho os olhos e imagino-me já a sonhar que sonho; abro os olhos e penso que já sei sonhar. Foste tu que fizeste tudo isto, a meu lado. Comigo. Para quem escrevo? Quem me daria a mão e me diria como sonhar? Tu.

4 comentários:

gustavosampaio disse...

...

Miss K. disse...

"..." ?!

estiveste mal disse...

Nâo acredites em nada. Acredita apenas em ti, nada mais. Só o EU é real. Só o EU pode voar. Abre os braços. Não tenhas medo. Não te limites. Sê livre.

São palavras normais, simples até. Mas é nas coisas mais simples que se encontra a Verdade.

criptog disse...

"E se eu pedir muito, ensinas-me a sonhar? Queres-me ensinar a sonhar?"
Ensinar: ajudar o outro a descobrir o que já sabe.

"Eu quero sonhar, sonhar perdidamente, voar daqui em asas rasgadas de pensamentos..."
Ainda bem, porque a vontade é um óptimo incentivo na aprendizagem.

"Podemos sair do tempo, sair do espaço, e nunca mais voltar ao universo tal como ele é - criar o nosso próprio universo: paralelo, único, singular."
Cuidado ... pode ser bom não se voltar ao que é por se ficar transformado e os significados se alterarem, mas pode ser mau não voltar ao que é por se querer simplesmente ficar refugiado.

"Desde que me ensines o truque do sonho, a magia de fechar os olhos e ver cavalos a dançar nas nuvens, estrelas em vez de vazio, ..."
Fecha os olhos e vê, abre os olhos e vê!

"homens e mulheres despidos de medos e a enfrentar o fim da vida com o sorriso de um nascimento..."
(esta é profunda!!!) Embora isto não se faça sonhando, para o fazer é preciso acreditar no sonho.

"Quero sonhar contigo, mas quem és tu?"
Talvez tu, talvez a identidade comum a todos nós, talvez a Vida!?

"não interessa, não importa, quero sonhar contigo para poder sonhar comigo, para planar sobre o mundo e ser feliz ao rir de tudo isto."
Já sabes para quê ... mas talvez seja por mais!

"Ensinas-me? Dás-me a mão, puxas por mim e levas-me para a terra dos sonhos? Dos teus sonhos? Para a terra onde te ensinaram a sonhar?"
É possível dar umas luzinhas e indicações, mas o caminho tens de ser tu a percorrer ... e sonhar aprende-se fazendo!

"Vamos até lá a caminhar com as tais pedras com que se fazem os castelos, vamos sem pedras nenhumas, vamos a flutuar, vamos de qualquer maneira."
E até parece que já sabes como lá chegar :)

"Fecho os olhos e imagino-me já a sonhar que sonho; abro os olhos e penso que já sei sonhar."
Talvez estejas simplesmente a sonhar que queres aprender a sonhar!

"Foste tu que fizeste tudo isto, a meu lado. Comigo. Para quem escrevo? Quem me daria a mão e me diria como sonhar? Tu."
Por vezes é preciso confiança para conseguir Caminhar e uma boa companhia é uma boa ajuda, mas quem caminha dá os seus próprios passos.

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Sonhar é uma possibilidade e uma necessidade. Permite-nos vivenciar a realidade simbolicamente e ao mesmo tempo aprofundar a nossa existência interior com uma dimensão de significado próprio.

Sim

:)

"E se alguém te disser que isto é falso e absurdo não o acredites. Mas não acredites também no que eu digo, porque não se deve acreditar em nada." - Fernando Pessoa

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"
Pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
"
António Gedeão