terça-feira, maio 16, 2006

Meu caro Fernando Pessoa, você treslê...

Se for possível amar um escritor, amo Fernando Pessoa. Se for possível sentir-me fascinada por outro, esse pode ser Saramago, mas terá de dividir o meu coração com outros génios. Ia dormir mas ouvi qualquer coisa sobre coisas sobre temas fascinantes, e lembrei-me deste "Ano da Morte de Ricardo Reis". Um registo à parte na obra do nosso prémio Nobel. É quase poesia, de tantas palavras tão bem encadeadas. Lá se contam os últimos meses do heterónimo Ricardo Reis que, nos seus passeios por Lisboa, encontra quase dia-sim-dia-sim o já morto criador; E, como dois fantasmas que são, conversam sobre a vida, a morte, e, inevitavelmente, sobre os outros. Não conto mais nada. Eu, li-o pela primeira vez há dez anos. Mudou a minha vida. Pior, deu cabo dela toda. Ainda bem. Saramago tem, neste livro, o meu excerto preferido de todos os meus excertos preferidos. Não me canso de o ler.

Numa diálogo entre dois homens-invisíveis, surge a cruel imperfeição da realidade. Que é urgente, e linda:

"(....) e Fernando Pessoa dirá, Só estando morto assistimos, e nem disso sequer podemos estar certos, morto sou eu e vagueio por aí, paro nas esquinas, se fossem capazes de ver-me, raros são, também pensariam que não faço mais que passar, não dão por mim se lhes tocar, se alguém cair não o posso levantar, e contudo eu não me sinto como se apenas assistisse, ou, como se realmente assisto, não sei o que em mim assiste, todos os meus actos, todas as minhas palavras, continuam vivos, avançam para além da esquina a que me encosto, vejo-os que partem, deste lugar donde não posso sair, vejo-os, actos e palavras, e não os posso emendar, se foram expressões de um erro, explicar, resumir num acto só e numa palavra única que tudo exprimissem de mim, ainda que fosse para pôr uma negação no lugar duma dúvida, uma escuridão no lugar da penumbra, um não no lugar de um sim, ambos com o mesmo significado, e o pior de tudo talvez nem sejam as palavras ditas e os actos praticados, o pior, porque é irremediável definitivamente, é o gesto que não fiz, a palavra que não disse, aquilo que teria dado sentido ao feito e ao dito. Se um morto se inquieta tanto, a morte não é sossego, Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos, Então onde está a diferença entre uns e outros, A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de não a ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre (...)"

2 comentários:

Tigas disse...

Li háalgum tempo atrás precisamente a edição cuja foto mostras (viva os livros baratos!!!) e foi um livro que apesar de tudo não me chamou demasiado a atenção, unicamente e simplsmente pela sua escrita por vezes cansativa;

No entanto, não posso deixar de reconhecer que o seu conteúdo é muito "sumarento" e poder-se-iam daí extrair muits e muitas conlusões.

No entanto, quem me tira o meu "Siddartha" tira-me tudo...
É esse e todos os livros sobre espionagem estatal autorizada e não autorizada, sobretudo s envolver a Mossad, organização que me fascina de sobremaneira; recomendo vivamente:
- "MOSSAD", de Viktor Ostrovsky; e
- "OS ESPIÕES DE GEDEÃO", de Gordon Thomas.
E já agora, se puderem ainda, comprem a "Sábado" desta semana que passou, pois vem gratuitamente um fascículo sobre terrorismo também bastante interessante para quem procura compreender muitos dos acontecimentos de hoje em dia mais além daquilo que nos é mostrado.

Bem, não melgo mais Miss k.

À bientôt***

João P disse...

"A diferença é uma só, os vivos ainda têm tempo, mas o mesmo tempo lho vai acabando, para dizerem a palavra, para fazerem o gesto, Que gesto, que palavra, Não sei, morre-se de não a ter dito, morre-se de não o ter feito, é disso que se morre"


.. lindo ..