domingo, abril 23, 2006

PAI: regresso à confissão (talvez nunca, mas está aqui)

Se eu tivesse nascido a falar inglês como língua principal, certamente não teria o menor problema em mandar "I love you's" a torto e a direito, mas como o choro já se gritava em português de Portugal, fui crescendo com vergonha de dizer coisas que noutros países parecem tão simples de confessar. Do mais simples "gosto de ti", ao "adoro-te", toda a gente ama toda a gente. Por cá não é bem assim. Temos vergonha, não nos sentimos à vontade, não é normal sair por aí a gritar a plenos pulmões que se ama alguém. "That's just not portuguese way of life." Vai daí, tenho passado a minha vida toda a lutar com uma vontade imensa de dizer ao meu pai o quanto gosto dele, ainda para mais sendo eu (infelizmente) filha única, e a vergonha que é ouvir essas palavras saírem da minha boca... Porquê? Porque até aos meus 14 anos ele chegava a casa às 22 horas? Porque nunca soube os meus segredos? Porque era uma figura que me impunha respeito? Porque o afastei de mim e criei uma barreira que não deixo, dez anos depois, deitar abaixo? Não sei. Agora que ele precisa de mim mais do que nunca, que decide entrar na minha vida de rompante, não sei como lidar com o meu novo "amigo". Por isso tenho andado a pensar naquilo que mais nos uniu desde sempre, e não foi difícil chegar a uma conclusão: o futebol, o Sporting. Perco a conta dos jogos que vimos juntos, e dos que comentámos via telefone, até mesmo quando eu estava no outro lado do mundo! Relembro a emoção na final da Taça UEFA, na véspera de ir para o Brasil... Nesse dia eu voltei a ter sete anos e o meu pai 45, no golo do Sporting ele abraçou-me com tanta força que o meu piercing deitou sangue!! Depois foi o que se sabe, mas mesmo aí sofremos os dois, ralhámos contra tudo e todos, falámos em silêncio, como dois putos que andaram à porrada e acham que nunca mais vão fazer as pazes... Nem por acaso, no domingo passado encontrei, numa revista que sai com o PÚBLICO, aos sábados, um texto do Joel Neto que é tal e qual aquilo que eu gostava de pôr em "hasta pública", para que o meu pai soubesse o quanto eu gosto dele. Não tem uma única vez a palavra "adoro-te" ou algum dos seus derivados. Mas ele ia perceber. Não é pai?






REGRESSO À CONFISSÃO, Joel Neto

"Sábado ao meio dia lá saímos de casa, eu e o meu pai: Smart atestado, tecto aberto ao sol, dois pares de óculos escuros, Jamiroquai - éramos imbatíveis. Sabíamos que perdêramos todos os clássicos decisivos nos últimos vinte anos, mas quando fomos almoçar e começámos a recordar as velhas histórias de desolação era como se expurgássemos em definitivo um passado que já não podia atingir-nos. "This is the day that the Lord had made", cantávamos por dentro. Só havíamos visto juntos um Sporting-Benfica, há uns anos, e eu estava a trabalhar, asbsorto - agora, sim, era para valer.

Devíamos ter sabido ver os sinais. Porque quando íamos a subir as escadas de Alvalade, cachecóis ao pescoço, iPod e olhares cúmplices, já o Miguel Ângelo cantava o seu "Leão de Fogo", remetendo os verbos ao final dos versos para facilitar a rima. Porque depois Ricardo não aquecia, dançava ao ritmo da música que continuava a ecoar. Porque pouco antes do início do jogo quem cantava pelos altifalantes eram Freddy Mercury e Monserrat Caballé, "Barcelona", para gozar com o Benfica e, ao mesmo tempo, recordar-nos a nossa pequenez. Basicamente, festejávamos antes da realização - e nunca essa circunstância se mostrara boa conselheira.

O resultado foi o que devíamos esperar. Falhámos quinze lançamentos laterais, insistimos nos passos longos, o mister enganou-se nas substituições, o inútil do nosso segundo ponta-de-lança continuou inutilmente em campo até já nada haver a fazer por nós - e finalmente o golo gélido, "a intensa solidão das tempestades / os campos alagados / os sítios sem resposta", como diz o Tolentino do jogo que fica para lá das nossas defesas. Ao regressar a casa não ouvíamos já os Jamiroquai: ouvíamos Paulo Bento e Liedson e os "vox pop" da rádio, como se quiséssemos manter aquele momento por um último instante. E, no entanto, tudo se acabara já.

No outro dia uma mulher bonita ouviu-me fazer uma referência a um clássico francês e perguntou-me, embora por outras palavras: "Como é que um tipo que se refere aos clássicos escreve sobre bola?" E eu disse-lhe o que então não tinha ainda sistematizado, mas era já verdade: "Escrevo sobre futebol para o meu pai." A vida distanciou-nos dois mil quilómetros no espaço e dois mil anos no tempo, e a certa altura precisámos ambos de voltar àqueles sábados de desaire dos anos 80, na Terra Chã, em que empunhávamos uma bandeira em frente à TV e nos entregávamos juntos àquilo. Nesse dia, voltei a escrever sobre futebol. Foi uma forma de "reach out". Como se diz "to reach out" em português - "estender o braço"? Então, voltei a escrever sobre futebol para estender o braço ao meu pai. E ele, que naqueles tempos se fingia blasé e me deixava ser eu a empunhar a bandeira, comprou entretanto dois leões de pedra para o quintal. Estendeu o braço também.

E se no fim-de-semana fomos os "losers" do costume, fomo-lo juntos. Perdemos, mas sabemos que é essa a nossa natureza - e, lá no fundo, não esperávamos outra coisa. O campeonato fica bem entregue - e para o ano há mais. Mudámos de presidentes, trocámos de treinadores, tivemos mais de 400 jogadores - mas essa frase permanece como a nossa segunda pele, "para o ano há mais". Hoje vou levar o meu pai ao aeroporto, e estou grato ao futebol e à sua transversalidade por nos terem juntado durante estes dias. Embora para a semana lá esteja eu na ilha - e, então, rimo-nos do quê?"

2 comentários:

Rafa disse...

Por estas e por outras do género, é que esses gajos mais num mês que eu num ano.
A merda é que não aprecio futebol.
Logo não compartilho desses momentos de cumplicidade paterna, e olha que bem falta me fazem.

TP disse...

"a lingua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém."

compreendo-te tão bem, apesar das circunstâncias aparentarem ser diferentes...

também me "resguardo" nesses pequenos elos...com o pai e com a mãe!