segunda-feira, agosto 06, 2007

Das pessoas únicas

"It's easier to leave than to be left behind.", cantavam os REM há dois anos atrás. Lembro-me de na altura ter pensado muito nisto, no que custava mais - se deixar, se ser deixado - e de nunca ter chegado a uma conclusão muito certa sobre o assunto. No mundo dos vivos, quando somos nós a ir embora ou os outros a nos virarem costas, há sempre a possibilidade de mudar de ideias, de voltar atrás. Há sempre tempo para tudo, julgamos. Que erro mais cego, que lição mais cruel. Chega um dia que é cinzento, que não tem cheiro nem sabor, que não é igual a mais nenhum porque não é um dia, é uma noite sem fim, chega um dia que é cinzento, em que não sentes os pés porque já não sabes andar, não tens fome porque não há espaço para nada no vazio em que estás, chega um dia que é cinzento, em que descobres que chorar pode ser não deitar uma única lágrima, que querer abraçar pode ser ter medo, ter pavor de abraçar. O dia em que és deixado, em que te viraram costas. Não por uns tempos, não por semanas. Para sempre. No dia em que és deixado, quem te deixa está também a ser obrigado a deixar-te. Não quer ir embora, mas de um lugar qualquer o puxam com mais força que o nosso amor e o levam até a História deixar de o ser. Por isso a morte é um lugar estranho. Não se sabe onde está, quando vem, porque aparece, para onde vai, e o que por lá se faz.
Se não fosse essa imposição do "ter de partir", hoje o meu avô fazia anos. E, garanto-vos, ele não queria ir embora por nada deste mundo, onde todos gostavam dele por ser o mais brincalhão e o mais simpático, o que mais lutou e o que mais colheu, o que mais passeou e o que mais deu, o que mais riu, tanto, tão alto, tantas vezes, que terminou assim, a rir. E deixou o legado do riso que vem dos confins da alma com a única neta, aquela que lhe quis dizer tantas coisas mas não foi capaz, porque o tempo corre mais depressa que o coração. O meu avô era único - não há cliché mais verdadeiro para o definir. E por ter sido único em vida, continua a ser único agora. PARABÉNS, AVÔ. SEI QUE ESTÁS NUMA NUVEM QUALQUER A ACOMPANHAR AS MINHAS DESVENTURAS, ANSIOSO POR COMBINAR A PRÓXIMA PARTIDA À AVÓ. DESCANSA, EU TRATO DISSO. HOJE É O TEU DIA DE ANOS. DIZ-ME SÓ QUE NUNCA DEIXAS DE RIR. ISSO VAI MANTER-TE VIVO PELA ETERNIDADE E UM DIA, ESSE TEMPO SEM TEMPO ONDE NOS ENCONTRAREMOS UM DIA.

10 comentários:

canetas disse...

Lindo.

Joana disse...

ok.




já me puseste a chorar.
e tenho dito.

S. disse...

:)

Cometa 2000 disse...

muito bonito. há risos que de algum modo se eternizam. sei-o bem......................

Caltuga disse...

Que saudades do meu avô... e desejos de nunca perder a minha avó que tem 88 anos...

Ouriço disse...

Identifico-me muito
Adorei ler esete texto...

Carla disse...

Lindo, lindo... que homenagem linda. Também tenho saudades dos meus avós. Muitas. Beijo grande.

wednesday disse...

tens um desafio ali no meu canto... os meus avós paternos já não os tenho, e sinto saudades. Mas ainda tenho os maternos, velhinhos, mas com sorriso sempre que estou com eles...
Acabei de voltar do Rio de Janeiro!

Vanessa disse...

É a primeira vez que comento mas tem sido cada vez mais frequente perder-me aqui pelas tuas letras.

Muito bonito.

Beijinhos*

Letras de Babel disse...

a minha avó, a única que conheci e que viveu sempre connosco, faria no próximo dia 8...


é bom estarem nas nossas palavras...