quarta-feira, abril 18, 2007

All Stars

Às vezes temos vontade de escrever uma declaração de amor. Nunca vos aconteceu? A mim, tantas e tantas vezes. Só que, depois, ponho-me a pensar: e escrever uma declaração de amor a quem? Porquê? A dizer o quê? Bem, estas perguntinhas chegam para ver que não há amor para dar nem para vender, porque o amor nem se questiona, respira-se e acorda-se como se nada fosse. Ainda assim. Vem-me à ideia a puta da declaração de amor. O sentido posto no dito. Penso penso, e nada. Nada. Quer dizer, encontro algumas coisas. Se vasculhar bem, e nem preciso ir longe, a última vez que tive borboletas a voar para fora do meu estômago foi... Isso, foi dessa vez. Em que se falava do direito ao voto, dos últimos grandes heróis, num frio absurdo trazido pela brisa do Tejo, embalado pela banda sonora de uma casa de vidro. Lembras-te? No meio de conversas entrecortadas pelo barulho do DJ estavam duas estrelas perdidas, achadas pela primeira vez, e nem a névoa que saía como fumo de cada palavra nos levava embora dali. É verdade. O que eu anulei, o que eu neguei, o que eu bati com o pé, o que contrariei, para jurar a mim mesma que essa noite tinha sido só mais uma, e que tu eras de facto interessante, mas não especial. Não, não, não, não, não. O mundo está cheio de nãos, acordamos e as notícias começam com o que não foi, o que não aconteceu, o que não houve, o que não é produtivo. O bem não vende, não rende, é apenas um sim e o sim encerra a questão - e pronto, perde-se o assunto. Com as borboletas que não deixei ficar no meu estômago, foste tu, inteiro, homem de se escrever homem, o melhor outro eu até hoje. Perdi-me de mim e, assim, foi muito mais fácil perder-me de ti. Porque, afinal, nunca se perde aquilo que realmente nunca se chegou a ter. O quase não chega para contar a história - só para imaginá-la. E isso não tem nada a ver com a vida. Porque, imagina. Um chá a 14 de Fevereiro (e foi mesmo por acaso, poderia ter sido num outro dia). Quadros na parede (e na mente). Um olhar do outro lado da mesa que te despe, te gela o sangue e te tira a força das veias. Ficas com medo. O que vais fazer contigo? Não, espera. Imagina. Um livro em branco, gigante, apenas soprado pelo vento do deserto, aquele que destrói tudo - mas sem o qual o deserto não pode existir. E agora? Pode o vento trazer de volta as borboletas que voaram para onde não sei? Pode a destruição acordar-me para correr até à janela, porque está a nevar em Lisboa? Às vezes não pode, não é? Vejo-o tanto nesses olhos. "Gosto de você sabia?" E eu não sabia, não podia saber, não queria saber. À minha espera estava a vertigem de mais um erro, de outro desgosto. Enquanto isso, aquele que "eu quero-te roubar para mim / eu que não sei pedir nada", escapou-me, como o sonho mais parecido com a realidade que consegui ter até hoje.

10 comentários:

canetas disse...

Escreves mesmo bem.

Parabéns.

Dino disse...

Li-o, reli-o e voltei a lê-lo.

El-Gee disse...

Tas de volta aos grandes desabafos que fazem valer a pena passar por cá.

Adorei esta carta de amor (que na verdade acho que escreves a ti propria).

Ja agora, tenho a certeza de que has-de amar muito e ser muito amada, porque mulheres como tu ha poucas, e a unica dificuldade que terás é a de encontrar um homem suficientemente corajoso para conseguir acompanhar a quantidade de Vida que (parece-me) ha em ti.

Suficientemente corajoso e suficientemente fascinante para que saiba responder a todos os teus estímulos e necessidades que nao parecem ser poucos.

às vezes Ele, às vezes Ela disse...

Mais uma vez, é uma delícia ler-te. O conforto/desconforto com que o que escreves nos envolve, leitores, não tem adjectivos que o possam qualificar.
Parabéns.

Ele

Nuno West disse...

Desculpa dizê-lo...mas não te sabia capaz de "falar" assim...

Joana disse...

Já li este teu post para ai umas 3 vezes... e concluo sempre que escreves exactamente a verdade!
Quantas declarações de amor escrevemos e se perdem no caminho que separa o destinatário do remetente.
E é uma pena...

Acho que vou começar a pôr as minhas em garrafas de vidro e a lança-las ao mar... pode ser que alguém um dia apanhe uma e a entenda! :)
bjs

Miss K. disse...

nuno, não sei porquê mas o teu comentário não me veio directamente para o mail, pelo que só o recebi hoje.

porque "dizes" isso? é mau?

MiSs Detective disse...

OHHH O MEU COMMENT???? nao ficou????

Miss K. disse...

não, querida, só mesmo este...

MiSs Detective disse...

humm, já nao sei bem o que escrevi mas qualquer coisa como...

também eu não deixei as borboletas ficarem, aliás neguei-lhes a entrada e arranquei-as à bruta, depois.

Tudo volta nas voltas dos dias...