terça-feira, janeiro 30, 2007

Crise nº94730450348230

Apetecia-me escrever com a mão esquerda. Apetecia-me fumar cachimbo em vez dos cigarros de ocasião. Apetecia-me gostar de legumes e de feijoada. E de pêssegos - sim, também podia começar a gostar de pêssegos. Apetecia-me ser jogadora de andebol num clube distrital, que perde todos os jogos, fim-de-semana após fim-de-semana. Apetecia-me trabalhar numa repartição pública. Apetecia-me chegar a casa e ter de fazer o jantar para duas crianças histéricas. Apetecia-me ser indiferente aos livros. E às revistas. E ao cinema. Apetecia-me perder as saudades do teatro, senão esquecê-lo. Apetecia-me saber estacionar o carro numa estrada ingreme. Apetecia-me saber resolver equações matemáticas. Apetecia-me ler os trabalhos de casa. Apetecia-me ouvir música de tendências populares. Apetecia-me ser a melhor aluna do 3º ano daquela escola primária. Apetecia-me jogar às escondidas. Apetecia-me ir para a rua com um sapato de cada cor. Apetecia-me escrever uma cartinha à Isabel, meu ódio de estimação (ai se eu lhe dissesse umas coisinhas, tão bem que me ia sentir...). Apetecia-me que me acusassem de pensar de menos. Apetecia-me chegar a casa, despir-me, e sair de mim. Não voltaria até às obras estarem totalmente concluídas.

5 comentários:

apipocamaisdoce disse...

Então força nisso!!! Tirando a parte do andebol numa equipa distrital, de resto tens o meu apoio em tudo.

amarga disse...

A mim apetecia.me uma data de coisas q tb disseste e sobretudo ter vontade de escrever, por em letras td aquilo tem tenho sentido.Beijo, isso passa :)

Pedro Santiago de Tânger disse...

Gestão de Crises: Desde logo, respirar fundo e abraçar a imensidão daquilo que já és, já foste e serás! que é tanto, com certeza! Já foste aluna, professora, amiga, inimiga, já andaste naquela rua daquela forma que só tu andarias, já passaste por aqula e outra crise que só tua foi (ninguém sequer consguiu espreitar), já inspiraste, já iludiste em contornos e formas inesperadas...

e se a crise fosse de outrém? quantas coisas quereria essa pessoa fazer que tu já fizeste?

e o teu tempo? é teu? é longo, espaçado, vivido? Corres?


quanto daquilo que queres podes, relamente fazer? e quanto disso te deixará, fielmente, realizada? (cliché, eu sei)

por vezes pergunto-me: se estou com tanta ânsia em fazer tudo quanto não faço nem sou, então deve querer dizer que não estou a fazer o que sou e faço da forma una, íntegra, na minha totalidade...estarei eu a fugir de mim enquanto percorro esses desejos?

Não sei...

Mas valeu este desabafo que aplico a mim mesmo pois revejo-me demais em tais ânsias...sinceramente, não me fazem bem, pelo que leio o que agora escrevo!

PS: Obrigado pelo post! Quanto à força...essa vem a grande custo mas tem de ser arrancada donde não quer saír...quanto às barreiras, podes ter a certeza de que são semelhantes, só muda a forma!a arte está em ultrapassá-las!

kiss me disse...

Tu pensas de menos!!!

Não é a minha opinião mas da lista é a única coisa que posso fazer por ti!

pinky disse...

ás vezes sabe bem e faz bem, sair de nós. claro que é uma coisa momentânea, que só nos faz voltar a nós muio rápidamente, mas é um exercício q nos faz muito bem.