terça-feira, setembro 26, 2006

Más Adentro

Padre Francisco: Freedom without a life is not freedom.
Ramón Sampedro: A life without freedom is not a life.
(MAR ADENTRO, de Alejandro Amenábar)


Voltar a ver "Mar Adentro" é como sair do ginásio depois de meses sem treinar: cái-nos mal, mas faz-nos bem. Porquê? Bem... Arrepia-me ouvir a voz rouca de Javier Bardem, espantoso no papel do tetraplégico Ramón Sampedro, e assusta-me pensar que aquela história não são só 121 minutos de bom cinema, mas 121 minutos de 27 anos em que um homem esteve preso à vida a olhar o mundo por uma janela, depois de ter podido ser tudo, e ter ficado sem nada; revolta-me imaginar que existem muitos outros casos semelhantes por aí fora, uns preferindo continuar a existir, outros exigindo o direito à morte que tarda em ser oficial, mas que chegou naquele dia em que, tal como Ramón, cheio de vida, calculou mal o mergulho naquelas que eram as suas águas...
Nem sempre nos lembramos da sorte que temos por podermos escrever, andar, ler, cantar, sermos independentes de outros para as coisas básicas do dia-a-dia: há uma diferença titânica entre quem o faz e quem precisa de ajuda para o fazer. A dada altura, isso é-nos explicado no filme, quando Ramón diz a Julia (Bélen Rueda) que os dois metros que os separam, que para ela ou qualquer mortal são insignificantes, constituem para ele uma verdadeira viagem ao impossível, uma quimera. Nós, que todos os dias fazemos as nossas pequenas travessias no deserto, nem sempre nos apercebemos como é bom poder ir para o Chiado passear só porque sim. Ou ir à beira-rio ao fim da tarde, apanhar aquele ventinho que nos traz sabor a Lisboa. Nós, que podemos subir ao Castelo, andar pelas ruelas do Bairro, dançar no Lux até amanhecer, correr atrás de um amigo que, por brincadeira, nos roubou o casaco... Qualquer coisa... Nós podemos isso tudo. E ficamos com uma sensação de que podemos mesmo tudo quando Ramón vai finalmente para o seu mundo, para se libertar deste, para ele de plástico, em que não era feliz. Para nós todos, altos, magros, gordos, baixos, feios, bonitos, vamos aproveitar isto que temos, isto que somos, e atiremo-nos vida adentro. Mais adentro, mais adentro...

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