segunda-feira, setembro 18, 2006

And so it is...


"A friend is one of the nicest things you can have, and one of the best things you can be."

Encontrei isto em qualquer lado, dito por alguém que não sei precisar, e lembro-me de o escrever como introdução a um bilhetinho electrónico enviado a um amigo meu que agora está longe. Fi-lo antes dele partir, com receio de que nos momentos em que estivéssemos juntos ele não percebesse o quanto era importante para mim – sim, porque as palavras pensadas não chegam a ser palavras, não são nada, mas uma vez escritas ficam ali para toda a eternidade, para nunca serem esquecidas (e sentidas).
Hoje esse meu amigo está do outro lado do Atlântico, mas para mim a distância é de milímetros: sei que posso falar com ele a toda a hora, porque ele está a toda a hora comigo, nesse sítio para onde vão "as pessoas que valem a pena", o coração. Já tentei explicar em frases, a outros amigos e amigas, o que significam para mim. Não sei se fui bem sucedida de todas as vezes, apenas sei que as vezes foram muitas. Há em mim qualquer coisa de patético que me faz dizer não só aquilo que penso, como aquilo que sinto. E, para além disso, tenho um aperto, assola-me uma espécie de urgência, se não digo a quem me é importante o quanto gosto dessa pessoa. De uma maneira ou de outra, lavada em lágrimas ou a chorar de felicidade. Se soubesse cantar o fado, cantaria, mas não sei. Só sei que o fado, o outro, o destino, apodera-se de mim e me leva a mostrar tudo o que sou e tudo o que nunca serei. E leva-me a pensar que este pode ser o último instante, o último momento, a última oportunidade, e eu sigo o que ele me manda e digo o que estou a sentir. Digo quem sou. Há um trovão que não se vê nem se ouve, mas que é o maior trovão que passa por Lisboa, sempre que eu consigo ser ainda mais eu. É o trovão que me prepara, normalmente, para o tantas vezes vem depois – a desilusão. Mas a minha alma vai limpa, o meu corpo vai limpo, porque eu disse a minha verdade no momento em que ela era verdade. Nem antes, nem depois. E isso basta para suportar o que o futuro trará consigo.
Porque ser amigo é mais do que ligar todos os dias, ir ao café, fazer grandes noitadas e ouvir confidências – é dizer que se gosta sem vergonha, mostrar que se morrêssemos amanhã morríamos mais ricos, porque esse nosso amigo tinha passado pela nossa vida. Às vezes, enquanto viajo nestas noites escuras em que vejo alguma luz, fico a pensar se terei feito tudo o que estava ao meu alcance pelos meus amigos. Se eles foram dormir a saber que eu durmo a precisar deles como preciso de ar, e que acordo a precisar deles como quem precisa de sol. Acho que tenho feito a minha parte. Por isso me apoquento quando ouço alguém dizer que "amanhã logo lhe ligo, quero lá saber", ou "aquele anormal sabe que eu gosto dele, uma noite destas encontramo-nos no Bairro e, no meio da bebedeira, esquecemos tudo." Não é assim. Ninguém tem por garantido "amanhãs" ou "noites de Bairro", porque o nosso poder frente ao destino é zero – alguém foi avisado que ia nascer?
E vem-me à memória uma frase batida "Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje". Fazer? Escrever? Dizer? Há coisa melhor do que ouvir um envergonhado "gosto de ti" de alguém de quem se gosta? Haverá certamente poucas coisas… Nós, humanos, somos todos como um robot, que desliga na hora de deitar e liga no momento de levantar. Um dia a pilha pode estar gasta, perder as forças. A nossa ou a de "alguém que valha a pena". Já que andamos aqui a ocupar metros quadrados e a despertar sentidos, que façamos o melhor uso deles: espalhemos à nossa volta não só magia, mas também alegria. O mundo ficará, decerto, um lugar melhor para se ir vivendo

PS – Escrevo isto contente. Escrevo isto triste...
Para um amigo a quem dei tudo, e que desistiu da nossa maravilhosa amizade. A minha parte termina aqui.

8 comentários:

R. disse...

"Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé." (Saint-Exupéry)


Gostar é um acto complicado assente em carris de papel. Às vezes muda a forma do gostar e as coisas descarrilam.

MysterOn disse...

...Reminds me of something.

Aliás, tudo o que aqui expões me faz lembrar muitas coisas, desde o assunir as coisas, desde de o dizer o que nos vai na alma, desde o "outro lado do Atlântico"...mas será que essa abertura de espírito vale memso a pena?(aqui neste mesmo blog, já muito se falou sobre isso...). Aliás, eu próprio, e tendo em conta esses mesmos debates e claro está, sentimentos - embora relativamente dúbios - tomei atitudes de frontalidade (independentemente da forma) e de assunir o que me ia/vai na alma. Sentimentos, ou diria até potências sentimentos, enfrentando uma eventual "vergonha/embaraço", de eventuais reacções menos boas...
Poderei dizer, sem sobra de dúvidas, que o saldo, o meu saldo, não foi mau e penso que a "Miss Ká do sítio", sabe disso.

E sim, concluíndo, acho que não se devem perder os momentos de se dizerem as coisas, boas ou más, aos amigos ou aos "inimigos" (entenda-se como inimigos, os amigos em fases menos boas, se é que me faço entender). Há determinados timmings que têm de ser respeitados...senão a caravana passa e Caput!

Fizeste bem...se acordares e caminhares tal como o dizes, passo a citar: "a minha alma vai limpa, o meu corpo vai limpo, porque eu disse a minha verdade no momento em que ela era verdade" para mim é o que interessa, é assim que tento jogar o "jogo social".

Boas noites vou dormir...

Tigas disse...

Miss K:

Ias tão bem até à última de todas as frases... a pate de cada numa amizade nunca pode terminar num ponto definido.Ela não pode ter limite. Ou é amizade, ou é conhecimento! Mas se é amizade, o limite não pode existir...

Penso eu de que...

nika_liu disse...

As pessoas que eu tenho como amigas, sabem o quanto gosto delas, pq estou sempre lá! Nas alturas más e boas! Apesar da distância mantenho amizades que sei que vão continuar! Elas sabem que podem contar comigo e eu sei que posso contar com elas! Já partilhamos o sentimento que nos une de diversas formas! Através de palavras, de grandes gestos e de pequenos também! Já lutei por elas, já as aconselhei, ja rimos juntas e já chorámos ainda mais unidas! Elas ouviram-me com a paciência natural das verdadeiras amizades e souberam compreender-me como ninguém! E apesar da distância estamos sempre em sintonia e a apesar da vida tomar rumos diferentes, continuamos a perceber quando algo aconteceu, pelo timbre da voz, pelas pausas, pelo riso!

MysterOn disse...

...Life and it's masterpieces have this kind of trade off.

Tal como grandes relações de amizade acabam do nada, outras assim começam. O importante é minorar as perdas, making the efforts you mentioned, and others alike.

Kiss for the misSSSss

Matvey disse...

"Por Milão, pelo Alentejo, por Peniche, por Lisboa. Pelas noites mal dormidas e pelas manhãs mal acordadas. Pela vez que vimos o sol nascer (e por aquela em que não conseguimos ver nada). Pelos projectos que não resultaram, mas que nos fizeram crescer. Até por aquela noite em que não te aguentavas de pé."

http://marchadospinguins.blogspot.com/2006/09/agnella.html

Percebo o que dizes.

criptog disse...

"qualquer coisa de patético" --> "qualquer coisa de especial"!

Penso que toda a gente tem características especiais, amíude motivadoras de um tipo de "sofrimento especial" relacionado com a identidade própria. Mas penso também que está (?) ao alcance de cada a entrega à vivência do significado pleno das próprias experiências, incluindo os laços afectivos. A vida também se mede pelas "marcas" com que se fica.

Admiro essa coragem em ser frontal na expressão do que vai na alma. Pessoalmente é-me frequentemente difícil ser explícito verbalmente, pelo que o esforço em ser verdadeiro me empurra por vezes para outras formas de expressão (acção, presença, intenção, outras linguagens). E para essas noites em que nos questionamos "fiz tudo o que estava ao meu alcance?" o mais sensato será certamente ser honesto na resposta, para que a cada instante que se segue possamos realmente dar o nosso melhor.

E se um post nos faz pensar nisto e nas nossas amizades, então já valeu a pena (ou as teclas!).

:)

criptog disse...

Ups!
*amiúde