Entre a melhor amiga e o namorado novo, a mulher escolhe sempre o gajo, mesmo que a relação tenha começado há sete horas. Entre conversar sobre um futuro a dois ou cortar na casaca de três, a mulher prefere sempre dissertar sobre a vida de várias pessoas, principalmente se estiverem ausentes. Entre a possibilidade de uma nova amiga e a hipótese de lhe tirar as medidas, a mulher nem pensa duas vezes - o rabo é grande demais, as pernas são magras demenos... E, como se de uma verdade matemática se tratasse, sai o resultado final: as mulheres odeiam-se tanto que criaram uma guerra de sexo dentro da guerra dos sexos; uma luta invisível, ridícula e com danos colaterais muito acima dos níveis aconselhados pelo bom-senso.
Durante dois anos levei com as trombas, o mau-humor e a antipatia de uma secretária de redacção que, desde o primeiro minuto, teve como objectivo máximo fazer-me a vida negra. Conseguiu. Em quase 24 meses, não sei se alguma vez se riu para mim, mas tenho a certeza que foram mais do que duas, as vezes que me levantou a voz. Os centímetros que separavam as nossas secretárias eram um abismo entre o meu bem-estar e uma frente de ataque que nunca se sabia para que lado ia atirar: se a minha letra que, ao preencher os recibos, era demasiado pequena, se a falha (capital) em ao fim de quatro meses não saber de cor o número de contribuinte da empresa, se o volume da minha voz, a cadência dos meus risos e sorrisos para com os restantes colegas, se a minha indumentária, que poderia gerar tanto risinhos como comentários de casa-de-banho com as outras frustradas lá do burgo, etc, etc, etc... Foram dois anos em que calei tudo e mais alguma coisa - e sim, muitas vezes aguentei até à hora de saída para me largar num choro pegado no carro, porque a pressão era demais. Pressão? Como, se o meu trabalho era bestial? "Tu vieste invadir o espaço dela", explicou-me o meu primeiro editor, "e isso ela nunca te vai desculpar..." Oi? Está-me a falhar alguma coisa, não? "É que a redacção nunca teve uma jornalista mulher" (ah, pronto, então que traga as verdascas), e além disso "tu és assim magrinha, gira, e dás-te com toda a gente, e isso não lhe agrada muito" (ok, pronta para a crucificação). Ora se eu fui logo avisada que à secretária de redacção, quarentona e com cara de queque podre, não lhe agradava a minha figurinha feminina e alegre, o que é que continuei ali a fazer por mais 24 meses? Afinal não era a madame que escolhia quem de direito entrava e permanecia daquela sala? Era. Tanto era que foram precisos 18 meses para que dos recursos humanos me assinassem um papel, visto que a pessoa que nos assistia trabalhava nos mais negros corredores da maldade, e o meu pedido de nome+carimbo transformou-se numa verdadeira demanda do Santo Graal.
Quando me vim embora, e deixei a mal-f***** (era mesmo assim que se referiam a ti, querida, temos tanta pena) para trás, pensei estar livre desse tipo de crueldade feminina. Nada mais errado. As cabras perversas, as que são realmente putas umas para as outras, estão em todo lado, têm é caras e nomes diferentes. Trabalhem numa estação de serviço ou numa casa de costura. São todas infelizes, amarelas, traídas ou por trair, frustradas, bolorentas, irritantes e irritadas; andam em grupo, porque a união faz a força, e vivem as vidas dos outros porque trataram de estragar as suas com o seu mau-carácter; a última vez que deram uma gargalhada com vida foi no sétimo ano e têm, quase sempre, um anel de namoro mais-velho-que-a-Sé-de-Braga, porque nem o tótó do namorado as quer realmente desposar. Tenho visto umas destas, várias até, e normalmente baixo a cabeça. Ainda deixo que me abalem por ninharias de faca e alguidar. Penso muitas vezes em dialogar, estabelecer contacto e dizer "olá, não me julguem só porque não tenho 70 quilos a mais e uma colóquio de borbulhas na face esquerda", mas estou errada. Onde é que já se viu uma mulher que se diz de M grande ter de pedir desculpa por ser aquilo que é?